CAFÉ COM LUCIAN FREUD: RETRATO DO ARTISTA

Lucian Freud (Berlim, 1922-Londres, 2011) produziu uma das mais impressionantes obras pictóricas do século XX e do início do XXI. Talvez da história da arte. Era essencialmente um retratista. Foi denominado realista, mas também expressionista e surrealista. Esta variação deveu-se muito mais ao desconcerto que provocou com seu modo de olhar para o ser humano e para a vida do que por questões técnicas ou mesmo relativas a teorias sobre movimentos estéticos. Suas pinturas são nitidamente descompromissadas com a representação palatável do ser humano ou da natureza. Os corpos escancaram o que há de inexorável, de trágico, daquilo que se converte no avesso do obsceno das anatomias. Tudo bastante rebelde às boas intenções do psiquismo moral. Transparece o que se degrada, o que se desajusta, o que se deforma na força da realidade. Suas telas chocam e encantam, sequestram o observador. Assim sucedeu com o jornalista inglês Georgie Greig, que após conhecer o trabalho de Freud numa visita de sua escola a uma exposição do artista, ficou completamente fascinado pelo que viu e inebriado pelo que sentiu. Tinha 17 anos e não se desligou mais do pintor. No início admirava-o à distância e mais tarde tornou-se seu amigo. Lançando mão de entrevistas (principalmente durante o café da manhã), de confidências e de suas observações na convivência com aqule homem tão incomum, escreveu um curioso relato de cunho biográfico com ênfase em seu comportamento irreverente, contraditório, irregular e difícil de ser resumido numa caracterização mais direta. Deu-lhe o título de “Café com Lucian Freud: Um Retrato do Artista”. Greig oferece ao leitor um desenho nada acadêmico, nem mesmo convencionalmente jornalístico, que toma forma através de fragmentos em que fica a marca do modo do artista se relacionar com o mundo. Possivelmente, os afetos do fiel admirador marcam o retrato, mas parecem não comprometer o respeito pelas bases factuais da vida do retratado.  Lucian M. Freud era neto do criador da psicanálise Sigmund Freud. Como tal, orgulhava-se de sua origem (sem admirar a psicanálise) e também da proteção salvadora da família real inglesa, que tirou sua família da Alemanha, no tempo em que o nazismo se agigantava e revelava sua perigosa truculência. Conviveu principalmente com pessoas das classes mais ricas e aristocráticas de seu país de adoção, mas também com aqueles que representavam o extremo oposto disto no tecido social. Não tolerava o modo de vida da classe média britânica. Teve pelo menos 14 filhos. Talvez bem mais. Casou-se várias vezes e também colecionou um número quase incontável de amantes. Não conseguia sentir-se bem na estrutura familiar, e acabou por conviver pouco com filhos, irmãos, tios, etc. Defendeu o direito à  sua privacidade, desde que fosse inequivocamente notado onde quer que estivesse. Aquilo que podia ver em seus modelos era tão importante quanto o que podia expressar sobre si mesmo na maneira de retrata-los. Deste modo, pintou antes de tudo a si mesmo. Durante toda a vida.  Este livro, além de informar de modo agradável, tem a sofisticação de tornar visíveis matizes menos óbvios da relação do homem com sua obra. Conturbação transformada num tipo de beleza que assemelha-se à violência das intempéries naturais.
Título da Obra: CAFÉ COM LUCIAN FREUD: UM RETRATO DO ARTISTA
Autor: GEORDIE GREIG
Tradutora: WALDÉA BARCELLOS

 

Editora: RECORD
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3 comentários

  1. Pois é, Luís, e eu, até agora não li o Café com Lucian Freud. Há de chegar o dia. Beijo e, de novo, parabéns pelo blog que nos põe a par da boa literatura.

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