O RUÍDO DO TEMPO

Dmitri Shostakóvitch (São Petersburgo, 1906-Moscou, 1975) foi um dos maiores compositores russos do século XX.  Teve sua trajetória de vida transformada numa sucessão de vivências de terror, impostas pela brutalidade das práticas de controle e aniquilação do indivíduo, no regime soviético. Especialmente no período de comando de Josef Stálin. Em seu mais recente livro, “O Ruído do Tempo”, o inglês Julian Barnes, reconstrói a vida do músico. E faz de seu romance histórico uma oportunidade para discutir a relação da arte com o totalitarismo. O primeiro sucesso de Shostakóvicht foi a ópera Lady MacBeth de Mtsensk , que caiu no desagrado de Stálin quando ele a assistiu no Teatro Bolshoi, deflagrando o infortúnios do compositor. Na necessária consonância com o grande líder, o Pravda, órgão de imprensa oficial, publicou um editorial dizendo que a peça operística “tratava-se de ruído e não de música”. Daí em diante, o compositor passou por sofrimentos inescapáveis, pois nas inquirições dos emissários do Estado nunca estava em jogo o esclarecimento de alguma verdade, mas sim a criação de um clima de ameaça, destinado à opressão da pessoa, forçando-a a se tornar cúmplice involuntária numa trama já pré-definida. Foi denunciado duas vezes, em 1936 e 1948, sob a alegação de que sua obra desviava-se da verdadeira arte soviética. Justamente ele, que havia manifestado várias vezes seu alinhamento com a ideologia vigente, além de mostrar-se e cooperativo com o regime o tempo todo, que havia composto trilhas para filmes estatais, que repetidas vezes homenageou, em suas criações, o comunismo ou os líderes nacionais. Tornou-se vítima do terrorismo psicológico praticado por determinação do dirigente maior. Provavelmente, por conta da originalidade e sofisticação, sua música foi banida na URSS, durante um longo período. Depois disto, quando “reabilitado”, viu seu trabalho ser usado pelo Estado com fins espúrios. Sujeitou-se a pronunciar, como autor, discursos escritos por outros, com conteúdos que abominava. Foi obrigado a desqualificar publicamente colegas que admirava profundamente. Teve que se desculpar publicamente pelo que havia de mais genuinamente seu, naquilo que criou. Assinou cartas e artigos que não escreveu, e de matéria que reprovava. Foi sendo gradualmente demolido. Temia a vida, repleta de pavores, e não se permitia buscar a morte, por temer o que a propaganda governamental faria com o fato. Traços da personalidade e contexto familiar, talvez tenham contribuído para suas aflições. Tinha uma mãe autoritária demais, e a figura paterna carecia de força suficiente para funcionar como esteio. Mas, dificilmente se poderia justificar sua dor de viver como devida a isto. Barnes contextualiza de modo objetivo e informado o cenário histórico desta trama verídica. Depois de 1932 o partido comunista enterrou a relativa autonomia de instituições artísticas, e passou a controlar diretamente os “assuntos culturais”. Supostamente,seguia-se o preceito de Lênin, afirmando que a arte pertence ao povo.  Tal ditame foi com frequência interpretado como se a arte não devesse perturbar a massa, e sim distraí-la. Para tanto, deveria ser de fácil assimilação, e sempre compatível com as diretrizes do Partido. Por exemplo, na música, seria imprescindível que houvesse harmonia simples e melodia sentimental. Romper com isto era considerado algo pernicioso.  Shostakóvitch, como muitos milhares de soviéticos, foi posto sob suspeição de ser “inimigo do povo”. Em princípio, pelo fato de Stálin não ter gostado de sua ópera. É possível que tenha incomodado muito sua capacidade inovadora, que produzia diversidade na composição musical, sofisticando-a, distanciando-a das músicas populares, folclóricas (as únicas apreciadas por Stálin). Difícil de agradar às massas. Pagou com muita humilhação e com uma espécie de suicídio moral. Mesmo sendo aclamado (a despeito de tudo) como o maior compositor russo de seu tempo, na URSS e mais ainda no Ocidente, nunca conseguiu aquilatar seu trabalho, orgulhar-se livremente dele, saborear os frutos de seus esforços. Secretamente indignou-se com os admiradores estrangeiros do regime, como André Malraux, Bernard Shaw e Roland Romain, que se contentavam com o que lhes era apresentado pela propaganda oficial. Sentia-se constrangido, sempre que manifestavam admiração por ele. Teve algum alívio após a morte de Stálin, e ascensão de Nikita Krushchev, mas ainda assim, agraciado com alguns privilégios destinados à pessoa célebre que era, e com acesso a relativo conforto material, viu-se obrigado a uma última indignidade, em 1960: filiar-se, sob pressão, ao Partido Comunista. O que nunca desejou, e do que se esquivou, mesmo nos tempos em que afirmava afinidade total com o regime.  Julian Barnes, mais uma vez, cria um texto forte e belo. Concentrado. Suporte apropriado para o que quis dizer.
Trecho: “A arte pertence a todos e à ninguém. Pertence a todos os tempos e à nenhum tempo. A arte pertence aos que criam e aos que desfrutam. A arte não pertence ao Povo e ao Partido, assim como nunca pertenceu à aristocracia e aos patronos.”
Título da Obra: O RUÍDO DO TEMPO
Autor: JULIAN BARNES
Tradutora: LÉA VIVEIROS DE CASTRO
Editora: ROCCO
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