A RESISTÊNCIA

Julián Fuks recebeu o prêmio Jabuti de 2016 pelo romance “A Resistência”. Merecido. Como bom escritor que se mostra, ele deixa patente seu amor pela construção do texto, pela força contida nas palavras e nas frases. A forma é senhora do conteúdo. Gera-o. Nutre-o. Em princípio, o narrador se propõe a falar sobre o tema da adoção, através da estória de seu irmão, nascido na Argentina durante o período da ditadura militar. O menino tem origem incerta. Talvez filho de uma presa política. É adotado por um casal de psicanalistas de que militam contra o regime. A família acaba por se refugiar no Brasil, onde nascem outros dois filhos. No trânsito das reflexões, cheias de vida e brilho, vai se desenhando o personagem central, que é uma vivência. Algo que faz parte da vida pregressa de seus pais. Que neles deixou marcas profundas, e que os filhos recebem como herança imaterial. A dor de se estar num país governado por um regime totalitário. O horror fartamente distribuído através do desaparecimento de pessoas. Da tortura e do assassinato. Referência vertiginosa para o filho escritor, nomeado uma única vez. A apropriação desta vivência se constitui na real adoção de que fala o narrador. A isto podemos atribuir a falta de definição de margens das poucas pessoas que povoam a estória. E também dos fatos.  Os personagens (antropomórficos) não têm voz clara. Seus nomes não os distinguem.  Não têm autonomia. As crenças e ideologias também são breves citações. Prestam-se basicamente como instrumentos, para que ele possa falar do que o toca, mas que não experimentou diretamente. Contudo, em nenhum momento há artificialidade. Há verdade e intensidade. Além de beleza. É uma ode à literatura. Nos últimos capítulos há uma meta avaliação do livro, através da leitura que os pais fazem do texto que também estamos lendo e, eles apontamentos a carência de fatualidade no que está descrito. Previnem o leitor. Pontuam e confirmam a natureza da narrativa. A resistência adquire múltiplos sentidos, mas apresenta-se primordialmente como a possibilidade de dizer, autêntica e legitimamente, aquilo que não foi uma experiência primária. De afirmar uma identidade consistente através do discurso. Bela obra. Um deleite.
Título da Obra: A RESISTÊNCIA
Autor: JULIÁN FUKS

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS 

 

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