OS EMIGRANTES

A literatura ficcional admite grande variedade de linguagens. Os bons autores evitam o uso gratuito ou apelativo de formas menos convencionais de escrita. Quando o fazem, o modo de dizer algo serve à eficiência, força e beleza do dito. Winfried Georg Sebald, ou W. G. Sebald (1944-2001) é primoroso quanto à consistência no uso de formas alternativas de expressão. Sua obra literária não é muito extensa, mas é brilhante. Nascido na Alemanha, viveu e trabalhou a maior parte de sua vida na Inglaterra, onde morreu. Sua religião de tradição era a católica, o que não diminuiu sua sensibilidade e solidariedade para com a tragédia judaica ocorrida em seu país natal durante a Segunda Guerra Mundial, tendo esta terminado um ano após seu nascimento. Sua visão de mundo foi moldada mais pelo que depreendeu do viver humano do que por suas experiências concretas.  Sebald dá forma ao desconcerto do indivíduo diante do esvaziamento de sentido nas ações, especialmente quando estas são, aparentemente, robustas em finalidades e explicações, praticadas na vida em sociedade. Ele ressalta a força da memória e resiliência afetiva, necessárias para que não se permita a evanescência do que é incômodo ou doloroso lembrar. Em vários de seus livros insere imagens fotográficas, nem sempre fáceis de serem interpretadas numa primeira mirada. Elas podem conter tanta polissemia quanto o texto escrito. “Os Emigrantes” é um romance que se utiliza de realidade e ficção para contar a errância do homem no percurso do que a posteriori será o seu destino. Um trágico desencontro entre idealização e expectativas frente à vida que efetivamente se vive. São quatro homens que se prestam como os focos narrativos. Personagens verdadeiros no que representam. Parecem, em princípio, que serão objeto de relato histórico-biográfico pelo autor. Todavia, no decorrer da narrativa fundem-se, para falar do desterro como sina inescapável. As questões tratadas por Sebald são legítimas em contextos amplos. Um de seus recursos estilísticos é não construir as estórias ou histórias de modo linear, pois, compreendidas como ele propõe, elas poderiam subverter os construtos psicologicamente toleráveis para a significação lógica dos fatos. Como talvez ocorra com homens e mulheres que penetrem mais profundamente os meandros de suas experiências. Além de “Os Emigrantes”, também foram traduzidos para o português “Vertigem”, “Austerliz” e “os Aneis de Saturno”, e alguns mais. Todos excelentes.
Título da Obra: OS EMIGRANTES
Autor: W. G. SEBALD
Tradução: JOSÉ MARCOS MARIANI DE MACEDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS  

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