DIAS DE ABANDONO

Muito já se falou sobre as inequidades entre os lugares do homem e da mulher, na sociedade ocidental. Não diferenças, mas inequidades. Justas questões a serem tratadas. Necessárias para que as relações humanas transformem-se, para melhor. Todavia, há que se considerar também a importância das diferenças genuínas. E buscar compreendê-las de maneiras abrangentes e criativas. Alguns perguntam se existe um discurso propriamente feminino, que fale da feminilidade. Lendo Elena Ferrante, neste “Dias de Abandono”. Fica a impressão de que sim, a mulher pode falar sua condição de gênero a partir de um lugar distinto do de um homem, e com ferramentas peculiares. A estória desta obra gira em torno dos sentimentos, pensamentos e reações de uma mulher abandonada pelo marido. Tendo feito dele sua esperança de completude, seu anteparo para os pavores da existência desprovida de sentido inerente, ela julga não poder sobreviver sem o, supostamente amado, cônjuge. Sua vivência é de total desamparo, de incapacidade para realizar a contento qualquer tarefa da vida cotidiana. Distancia-se da realidade imediata, que passa a parecer-lhe insignificante diante da perda catastrófica que sofreu. Negligencia os filhos, que já não consegue integrar ao seu campo de amores e motivações. Assim como o cachorro da família, estes parecem-lhe um fardo injusto para o qual não tem forças que o possa sustentar. Sua vida se desorganiza, em torno da obsessão pelo marido perdido, e ainda mais, pela sensação de desvanecimento dela mesma. Sem sua referência maior, deixa de conseguir preservar uma identidade que dê rumo a suas ações. Desse mergulho num tipo de “loucura”, enraizada na insana compreensão de mundo que a precedeu e propiciou, ela emerge. Resgata-se. Curiosamente Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém desconhecido, a quem se deve a autoria de uma série de livros que fazem sucesso retumbante, na Itália e no mundo. Não se pode descartar a possibilidade de Ferrante ser até um homem, pois o discurso feminino poderia partir de onde não parece mais provável. Mas, eu juraria que trata-se mesmo de uma mulher.
Título da Obra: DIAS DE ABANDONO
Autora: ELENA FERRANTE
Tradutora: FRANCESCA CRICELLI  Editora: GLOBO
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