A PRIMEIRA ÚLTIMA VEZ

Narrar algo concisamente é um exercício de contemporaneidade. As mídias eletrônicas tornaram esta modalidade de comunicação um desafio. E uma obrigação. Não se pode mais escapar. Os jovens deste início de milênio ficam à vontade nestes domínios. E o conto é uma forma literária com afinidades por esta modernidade. Olhando para trás, perto ou longe, encontramos os grandes contistas, que fizeram bom uso do dom de criar uma estória abrigada em poucas palavras. Nem sempre tão poucas, mas sempre muito menos do que uma novela, ou um romance.  Jorge Luís Borges, Carlos Drumond de Andrade, Machado de Assis e Isaac Bashevis Singer foram criadores maravilhosos, neste formato. Pode haver muita diversidade quanto a estilos narrativos e conteúdos. Alguns contos parecem miniaturas de romances, outros só entregam poucos elementos de uma estória, que o leitor tem que ampliar, usando seus próprios recursos criativos. Às vezes são tão econômicos, que funcionam como sugestões, e obrigam a exercícios elásticos de construção de sentido. A jovem Julia Mac Dowell está fazendo sua estreia como escritora, neste cenário. “A Primeira Última Vez” se compõe de contos breves. Cada um deles é um instantâneo fotográfico, que enquadrou um detalhe, de algum todo. Retratam o essencial, que quase nunca se confunde com o óbvio.  Mas não são propriamente telegráficos. Seduzem, por terem boas construções das frases, sem perda de espontaneidade. E também pelos temas, que são variados, mas em seu conjunto, perfurados por um único fio: a realidade. Compartilhável, potencialmente, por todos. Vivida ou imaginada. Realidade chocante, com frequência, em função da dureza que a caracteriza. E que não é escamoteada por Julia. Os contos do livro cabem em múltiplos contextos, mesmo aparentando falta de propósito de universalidade. A autora provoca inquietação. Com jeito de quem fala de uma banalidade qualquer, ela sacode os distraídos, ou belisca os românticos. Sua linguagem cria a impressão de coloquialidade, mas somente as palavras isoladas são coloquiais, e não o tecido que elas formam. Onde há humor, este é contido, e ácido. Coerente. Tomara que este livro seja a primeira, mas não a última vez. Esperamos por outras.
Título da Obra: A PRIMEIRA ÚLTIMA VEZ
Autora: JULIA MAC DOWELL
Editora: LETRAS

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1 comentário

  1. Luís, talvez o conto seja o meu gênero preferido. Então, ao ler seus post, senti falta da inclusão de Tchekhov nas suas referências a grandes contistas. Mas isso pode ser chatice minha e certamente vem da minha paixão pela literatura russa e seus maravilhosos contistas, novelistas, romancistas. Quanto ao livro resenhado, mais uma vez você me convenceu. Fiquei com vontade de conhecer essa autora. Beijos e beijos.
    Anaelena

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