ANIQUILAR

Nunca foi fácil compreender o mundo. Nem manter nos trilhos da racionalidade a compreensão que por ventura se alcança. Com a velocidade dos acontecimentos e transformações causadas, em grande parte, pela crescente sofisticação tecnológica, tornou-se quase impossível estabelecer teorias duradouras ou mesmo hipóteses estáveis sobre o que se passa no entorno das pessoas, assim como em seu interior. Especialmente perturbadora é a imprevisibilidade do futuro e o que indivíduos e sociedades podem fazer na busca de melhorias ou de preservação. Cabe a suposição de que existem forças inescrutáveis e indomáveis movendo as engrenagens invisíveis das quais todos dependemos, sem relação necessária com qualquer misticismo.

Michel Houellebecq (Ilha da Reunião, 1956) tem mostrado agudeza cortante para tratar daquilo que é “ser humano” e dos desdobramentos de tal condição. Desfaz camuflagens. Desafia os que pretendem se sustentar na História formal, a qual se mostra em grande medida fruto de interpretações e não de um conjunto claro e incontestável de informações. Mostra ceticismo quanto a diferentes sistemas de valores. Aponta para a implacabilidade dos destinos, que dissolvem os projetos do homem. Faz pensar no absurdo que repousa sob aquilo que parece ter uma ordem lógica e inteligente. Lança dúvidas sobre a autenticidade das boas-intenções e do humanitarismo em estratégias governamentais ou de algumas coletividades, o que não deixa de ser inerente a cada indivíduo.

Em “ANIQUILAR” ele usa leveza discursiva para atacar o otimismo do leitor quanto aos intentos de descobrir ou construir significados sólidos para as finalidades do que se faz ao longo da vida; nisso visa também o desmanche das ilusões de permanência de qualquer coisa. Faz isso sem piedade (aliás, ele parece nunca se apiedar de quem o lê, em qualquer um de seus romances). A narrativa, situada na França de 2027, é construída em torno de um homem, Paul Raison, cujo protagonismo acaba por distanciá-lo dos outros personagens, estes funcionam meramente como acessórios. Seu sobrenome, assim como o título do romance prenunciam a matéria que realmente interessa ao autor. Inicialmente é criada a expectativa de uma estória de suspense sobre terrorismo, que dá lugar a questões sobre política e depois a eventos trágicos na vida privada de Raison. Em alguns momentos parece ter ocorrido descarrilamento do enredo. Todavia, nisso reside o espírito do texto, sua ação fundamental. Viver para morrer é a constatação convertida em tema do livro. Dá unidade à estória em seus descaminhos. Agir ou renunciar à ação parecem mecanismos de extinção quase equivalentes na trama. Desenha-se uma forma houellebecquiana de abordar o niilismo, ao menos numa de suas acepções filosóficas. Aniquilar funciona mais como determinante incontornável do que como o infinitivo de um verbo. E aniquilar é o verbo essencial nesse entendimento ou proposta de interpretação do romance. Sem lugar para qualquer tipo de neutralidade.

O autor põe os avanços tecnológicos no centro da arena em que expõe a violência do homem quando ela ganha potência e o terrorismo deixa de ser decifrado enquanto discurso. A destrutividade não é consequência de disfuncionalidades e sim atributo natural do humano. A política, em princípio destinada a viabilizar a civilidade na convivência, parece reduzir-se a um jogo quase fútil para a negação do vazio e da morte, caracteristicamente dominada pela hipocrisia. Vale destacar o comentário sobre a decadência da política e do jornalismo “institucionalizado”, que se unem na tentativa de sobreviver à internet e às novas modalidades de comunicação. Na dimensão mais privada é importante a questão da solidão, afirmada nas relações entre pessoas. Trata-se de uma solidão radical, em que um pouco sabe do outro e que limita o contato real entre indivíduos a pouco mais do que o sexo, que tem papel redentor frente a todas as outras falências.  

Houellebecq não propõe alternativas para aquilo que leva inexoravelmente à aniquilação. O único bálsamo é o amor sexual. O que pode ser tomado como crítica social confunde-se com a exposição de fragilidade psicológica dos indivíduos no imbróglio do viver. Ele é ácido no que diz. Mostra crueldade, mas não maldade. Parece ter como intuito promover a desmontagem de crenças, ideologias, religiões e estruturas afins, sem especificidades. Onde parece haver cinismo talvez haja apenas desistência das desculpas e justificativas.

Título da Obra: ANIQUILAR

Autor: MICHEL HOUELLEBECQ

Tradutor: ARI ROITMAN

Editora: ALFAGUARA

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