O GOLEM

Criar mitos tem sido um modo dos seres humanos falarem sobre o que não conseguem conhecer empiricamente ou depreender a partir de diversos outros métodos científicos. Desde a Antiguidade. Por vezes a transmutação de hipóteses, que deveriam permanecer caracterizadas pela incerteza para valerem como etapas da construção do conhecimento resultam em mitos. Eventualmente acontece quando elas passam a ser vistas como verdades em si, intransitivamente, aproximando-se de uma ficção. Todavia, o processo de inventar um mito pode ter diversas funções, tanto individualmente como para coletividades. Em certos contextos presta-se a alimentar a esperança no Bem e em outros dá corpo (mesmo que fantasmagórico) ao Mal, cujas definições são sempre bem mais pobres do que se pretende e meio traiçoeiras em sua instabilidade. Mitos auxiliam a tolerar medos, mitigar angústias, esperar pelo melhor e seguir vivendo, apesar das adversidades. Fazem parte do espectro dos derivados do pensamento mágico de crianças e de adultos. Contribuem para a formação de identidades psicológicas e culturais. Cabe sempre uma multiplicidade infindável de interpretações para cada um deles. Alguns veiculam muita beleza, do tipo que habita o espaço entre a força e a fragilidade do homem.

O Golem é um mito judaico ligado ao cabalismo e contado em diferentes versões. Trata-se de um humanoide gigante construído com material inanimado, frequentemente um ser feito de barro e dotado de vida por um tempo limitado e com finalidades específicas, geralmente associadas à defesa dos judeus em graves apuros. Para que um Golem exista é necessária a intervenção divina. É comum a menção de que deve ser inscrito em sua testa ou em seu peito um dos nomes de Deus ou um desenho que alude a uma entidade sobrenatural. Caberia a um rabino muito especial a execução da tarefa de esculpi-lo e dar-lhe a vida temporária. Representa o poder para solucionar extraordinariamente problemas que ultrapassam as competências humanas em determinados momentos.  

Isaac Bashevis Singer (Polônia, 1902 – EUA, 1991), que nos legou obra marcada por vivacidade encantadora e que foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1978, também escreveu sua estória sobre um Golem. É uma breve novela. Saborosa. Seduz pelo enredo e estimula o pensamento a respeito da universalidade das fantasias sobre mecanismos defensivos. Especialmente, faz refletir sobre a questão dos limites impostos pela ética aos atos dos indivíduos e grupos, mesmo que justificados em algum plano pela premência de ações resolutivas. Nas lendas populares judaicas um Golem deveria ser desativado logo após cumprir sua missão apagando-se a inscrição esotérica em seu corpo. Caso isso não se cumprisse haveria perda de controle sobre ele, com desfechos imprevisíveis de seus atos. Por mais tentador que fosse preservar um instrumento de proteção tão excepcional, talvez capaz de conferir muita força a um povo e assim alcançar vitórias improváveis ante os perigos do mundo, as consequências ruins poderiam superar os benefícios.

A palavra Golem pode também funcionar como adjetivo, assumindo o significado de bronco ou estúpido. Tal dado faz lembrar as dimensões mais complexas na polissemia da estória do homúnculo gigantesco e poderoso. Para além do cumprimento de um determinado objetivo, bem definido e em contexto restrito, o uso de recursos excêntricos dessa monta poderia se tornar causa de desastres. Seria imperativo o retorno aos difíceis trâmites comuns para a resolução de problemas, mesmo correndo o risco de grandes frustrações.

É cabível a suposição de uma crítica por parte de Singer sobre os problemas da extensão do pensamento místico, das crenças e ações baseadas nele em contraposição à observância de leis mais naturais da realidade. Adicionalmente, é possível olhar para a metáfora sobre a necessidade de dar relevo à “lei” que a todos rege, sem privilégios de uns para o controle de outros, em que pese que exceções tendem a ser inevitáveis. Da leitura brota a ideia de que a justeza das relações sociais deve estar assentada na conquista da civilidade, tolerando diversidades, dificuldades inexpugnáveis e observando a norma máxima do respeito ao outro. Grande é o ideal de conviver sem oprimir, de sobreviver e ter a liberdade de ser quem se é sem buscar a eliminação do diferente. Sobretudo, cintila a ideia de que é fundamental suprimir a imensa tentação do abuso do poder.

Vale acrescentar que ler Singer é sempre um prazer.

Título da Obra: O GOLEM

Autor: ISAAC BASHEVIS SINGER

Tradução: J GINSBURG

Editora: PERSPECTIVA    

2 comentários

    1. Os contos são maravilhosos. E os romances também são bons. Eu li quase tudo dele ao longo dos anos. O Golem é bem curtinho. Muito obrigado pelo comentário querida Anaelena
      Um beijo

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