SUÍTE TÓQUIO

Relações afetivas modificam-se ao longo do tempo. Costumam ser obstruídas intermitentemente por zonas desérticas onde a solidão humana afirma-se com excessivo poder, neutralizando os esforços para dominá-la ou pelo menos disfarçá-la. Há afetos do âmbito íntimo, que são manifestados no entorno, mas há também os inerentes às relações sociais (que são menos anônimas do que podem parecer) e que ligam universos heterogêneos, conectando e desconectando pessoas. Fundamentais tanto entre familiares justapostos e casais que se escolhem quanto para aqueles enlaçados através de vínculos circunstanciais. São sempre complexas. Desejas, idealizadas e muitas vezes problemáticas são as que se estabelecem com filhos, de naturezas distintas para mãe e pai, ao dar e receber e não dar e não receber. Importa também neste campo considerar que as coisas quase sempre não são bem o que parecem ser e que a imprevisibilidade nos comportamentos das pessoas são mais regra do que exceção. Transformações culturais têm grande peso na modelagem das interações humanas, em seu manejo e na formulação de compreensões sobre elas. Tudo sempre datado quanto à validade.

“Suíte Tóquio” de Giovana Madalosso (Curitiba, 1975) é um pequeno romance que viaja por esse cosmo. Põe em cena trajetórias e destinos. Toca em questões muito relevantes por perspectivas da contemporaneidade. Inquire sobre o lugar da mulher no casamento, no amor, na maternidade, no trabalho e em possíveis demandas feministas. Talvez este seja o principal mote do livro: os sentidos que podem ser dados ao “ser mulher” em meio a tantas reconfigurações que os papeis de gênero vêm sofrendo. Assim, diz respeito também ao homem. Não é abusivo com leitor, evitando o emprego de chavões e palavras de ordem, o que contribui para a seriedade da obra. Duas narradoras contam a estória. Elas fazem uma espécie de contraponto uma para a outra em função das posições que ocupam na sociedade, dos tipos diferentes de turbulências que enfrentam para afirmar suas identidades e das peculiaridades de expectativas quanto ao amor, maternidade e possibilidades de gozo com o que conquistam. A narrativa é movida pelo desaparecimento de uma menina de quatro anos, de quem uma é mãe e a outra babá. A autora cria sucessivas camadas temáticas na evolução da trama, dispostas como nas ilustrações tridimensionais. Esta diversidade nos focos de abordagem tornam a leitura interessante, rica. As situações que se encadeiam e às vezes se sobrepõem são muito bem descritas. Há distinção real nas vozes das duas mulheres que falam. As personagens são vivas. O desdobramento nas fontes de relato faz sentido, não tem nada de fútil, nem de artificial. Resulta em autenticidade ao valorizar a diversidade de significados que uma mesma coisa pode ter para indivíduos singulares, habitantes de mundos desiguais. Não há espaço para heróis e Bem e Mal não se polarizam.

A leitura é envolvente, pois além de ter o que dizer, Madalosso tem talento para seduzir e conduzir seu leitor. Tem frescor no olhar. Nem precisa de experimentalismo na linguagem.

Título da Obra: SUÍTE TÓQUIO

Autora: GIOVANA MADALOSSO

Editora: TODAVIA

2 comentários

  1. Luís, foi uma alegria ler sua resenha. Li Suíte Tóquio há alguns meses e gostei muito. Não conhecia a autora e as duas vozes femininas me impressionaram. São tão particulares, tão bem ‘entoadas’. Além disso tudo, me vi acompanhando de muito perto a história toda, é passada muito perto de onde eu morei aí em São Paulo. E o caso da empregada que deixa o bebê em uma sacola é real, não sei se você se lembra. Sua resenha, como sempre, é excelente. Um beijo e bom fim de domingo.

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