OS TRADUTORES

Apesar de termos grandes escritores em língua portuguesa e muitos de nós termos fluência em outros idiomas, o que nos permite fazer leituras “diretas” de uma obra estrangeira, grande parte do que lemos passa por tradução. Nem sempre pensamos na importância dos tradutores para que possamos ter acesso mais abrangente à literatura universal e isso acaba por ser uma injustiça. É sempre mais comum louvarmos a grandeza de um escritor, mas se estivermos atentos aos processos envolvidos no trânsito de um entre o ponto em que um livro foi originalmente criado até que o leiamos em português não poderemos deixar de reconhecer o delicado, difícil e imprescindível trabalho de quem o traduz.

Há muitos tipos de tradução, pois este campo engloba, além da literatura, diversos ramos mais ou menos técnicos, como os jurídicos, os científicos e outros. Dos tradutores, cada vez mais, é exigida uma formação específica e que implica muito investimento em estudos.

Traduzir um texto de uma língua para outra não é uma tarefa mecânica, nem mesmo quando pensamos na objetividade de peças de cunho técnico. Se falarmos de literatura ficcional ou poesia será necessário um modo interação entre tradutor (também um escritor, mesmo que não tão visível) e o autor primeiro de um texto, que pode ser algo bastante complexo. Existe nesse processo um segundo trabalho de criação. As palavras, expressões e frases são quase sempre polissêmicas, ou seja, veiculam múltiplas possibilidades de significação. O transporte de conteúdos entre os diversos idiomas que existem no planeta depende muito da capacidade de percepção dos tradutores no que diz respeito aos múltiplos sentidos veiculados pela materialidade das palavras e das construções que permitem quando agrupadas. Eles têm que selecionar entre as muitas perspectivas viáveis de leitura aquela que é mais fiel ao que o autor primário, a fonte, quis expressar. Especialmente quando consideramos os textos literários, a leitura, as interpretações, as significações para um mesmo enunciado podem ser muito vastas e não necessariamente congruentes. Depois da tarefa de ler com excepcional cuidado, em que o tradutor se ocupa em melhor captar as intenções do escritor que traduz, ele ainda terá que se empenhar em conduzi-las até o leitor através da elaboração de um engenho sintático que sirva a este propósito na língua para a qual o texto é traduzido. Além disso, e talvez missão ainda mais desafiadora, seja recriar uma estética, que é fundamental para que o conteúdo do texto, o espírito do primeiro autor, seja trasladado com a máxima precisão. A questão estética não se resume a beleza e feiura, mas também há nesse campo uma espécie de sintaxe que faz parte da obra literária. Aqui a sensibilidade, sofisticação e humildade do tradutor são essenciais. Ele terá que ser um recriador, sem a liberdade de escrever falando por si mesmo, mas sim mantendo uma forma de lealdade artística para com o traduzido. Grande responsabilidade, que demanda imenso talento.

Temos excelentes tradutores no Brasil e eles merecem gratidão e homenagens. É sempre injusto esquecer alguém, mas vou citar alguns que admiro e espero que representem muitos outros: Boris Schnaiderman, Jorio Dauster, Paulo Geiger, Paulo Schiller, Eloísa Araújo Ribeiro, José Rubens Siqueira, Onédia Célia Pereira de Queiroz, Valerie Rumjanek, Rosa Freire D’Aguiar, Eduardo Brandão, Lya Luft, Modesto Carone, Eric Nepomuceno, Gilda Stuart, Antônio Houaiss, Bernardina da Silveira Pinheiro, Suzana Vasques Pinheiro Santos, Mario Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira. Vale lembrar que vários deles escreveram suas próprias grandes obras, em prosa ou poesia.

Abaixo foto de parte de um mosaico da Pinacoteca Ambrosiana em Milão

3 comentários

  1. Meu Caro, “bello” texto, causa uma admiração lo no inicio da leitura, impressiona pela preocupação com um “artista”, nem sempre lembrado. Grandioso, majestoso. Parabéns. pela magnificência da gravura que escolheu para ilustrar.

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