A NOITE DO MEU BEM

Muitos de nós temos uma (quase) saudade do que não vivemos, mas que nos foi bem contado e em que foi delineado aquilo que há de bom na vida, tão de cheia do que não o é. Imaginamos e sentimos. Aprendemos algo. Preservamos algo. Não importa que sejam interpretações de quem conta e que haja alguma distância entre fatos concretos e a realidade de quem a experimentou mais concretamente. Aliás, talvez seja isso o que se dê com a História que, desde Heródoto, guia nossas impressões sobre o mundo que não nos foi contemporâneo.

Ruy Castro (Caratinga, MG, 1948) tem grande talento como jornalista literário. E, maior ainda como apreciador da vida. Ao menos quanto a graça da música, incluindo o “meio de cultura” em que ela é criada. E, de modo mais geral, em relação a universos que produzem ou contêm personagens e suas criações, tão fundamentais a certos prazeres possíveis para mentes humanas, denominados diversão e arte.

“A Noite do Meu Bem” é uma história do samba-canção (uma modificação do samba que teve início no final dos anos 1920 e apogeu nas décadas de 40 e 50). Mas, Castro fala de muito mais. Constrói um relato sobre o que acontecia no Brasil em que este estilo musical foi criado, especialmente no Rio de Janeiro, a capital do País. Vemos o surgimento das boates e as transformações de comportamento na época. Encontramos Dolores Duran, Doris Monteiro, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Tito Madi, Lucio Alves, Dick Farney, Linda Baptista, Marlene, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Antônio Maria, Custódio Mesquita e muitos mais. Também gente da esfera política, jornalística e social como Getúlio Vargas e família, Eurico Gaspar Dutra, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Carlos Lacerda, Samuel Wainer, Jacinto de Thormes, Danuza Leão e todas as mulheres e homens glamurosos que circulavam por esse cenário e estavam presentes no imaginário de quem participava disto através de jornais e revistas.

Para alguns poderia parecer tratar-se de material um tanto supérfluo, mas é preciso cuidado com julgamentos nesse sentido. Está ali um olhar para parte importante da identidade brasileira. Muita informação bem documentada e exposta em enredos curiosos e divertidos. Com intimidade. Pode ser lido como um romance. Dos mais saborosos.

Título da Obra: A NOITE DO MEU BEM

Autor: RUY CASTRO

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

2 comentários

  1. Leitura deliciosa, o samba-canção foi muito ouvido até meados dos anos 60, foi a trilha sonora da minha infância. Fui lendo e procurando as músicas citadas para ouvir novamente.

    Curtido por 1 pessoa

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