PRIMEIRO AMOR

As paixões costumam preceder afetos mais estáveis, como os sentimentos amorosos. Para passar da paixão ao amor é imprescindível o desenvolvimento da capacidade de resiliência frente às frustrações impostas por eventos da realidade. A idealização alimenta a primeira, mas torna-se relativamente supérflua, ou mesmo danosa, no segundo. Trocar a imagem pré-fabricada de alguém por um esboço que inclua o conhecimento que vai sendo construído na convivência faz parte deste processo. E geralmente há muitas surpresas e choques no caminho. “Primeiro Amor” de Ivan Turguêniev (Rússia, 1818 – França, 1883) fala de uma primeira paixão e do despertar para percepções mais acuradas sobre os indivíduos. O que se experimenta e o que se faz com isto acaba por imprimir marcas duradouras e adaptativas que se acumulam ao longo da vida e tendem a contribuir para formatar relacionamentos afetivos posteriores. Não é uma novela romântica como o título faz supor. Na estória do adolescente Vladimir Petróvitch, seus pais e a princesa Zinaida o que importa são as descobertas que o protagonista faz sobre os outros. Ele é tocado não somente por uma paixão incipiente, mas também pelos comportamentos das pessoas mais e menos próximas. Suas observações a respeito de seus pais e do mundo eram marcadas pela ingenuidade. O que poderia ser mais desconcertante neles passava despercebido antes da sensibilização necessária para enxergar mais amplamente. O que se oculta nos discursos, mais do que aquilo que é pretendido revelar, dá o tom a este tipo de aventura humana. A elegância de Turguêniev não admite arroubos. Ele é sempre sóbrio na intensidade do que diz. Como em outros de seus livros, há muitos elementos autobiográficos fomentando a ficção. Mas vale ressaltar que uma das lições ofertadas pelo autor no conjunto de sua obra é o fato da criação ficcional ser o real meio pelo qual a verdade se impõe. Aqui ele trata menos de questões sociais de seu universo externo e prioriza o que se dá na intimidade. Certamente uma coisa nunca está tão desvinculada da outra quanto pode parecer, mas são dimensões do viver nem sempre passíveis de serem tratadas sem distinções. Um clássico de leitura bastante prazerosa.

Título da Obra: PRIMEIRO AMOR

Autor: IVAN TURGUÊNIEV

Tradutor: RUBENS FIGUEIREDO

Editora: PENGUIN-COMPANHIA

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