A BARATA

Nos últimos anos mundo tem dado voltas cada vez mais rápidas e assustadoras, com transformações difíceis de interpretar. Movido por humanos em posições de comando com o assentimento distraído ou equivocado dos comandados. “A Barata” de Ian McEwan (Inglaterra, 1948) é uma sátira política e uma distopia que registra a apreensão do autor em relação a isto. A inspiração primeira é kafkiana, talvez uma homenagem, mas no conjunto este “conto longo” é puro estilo McEwaniano. O livro alude ao Brexit. Todavia, o que está em jogo, de modo bem mais amplo, é a vocação humana para a destruição, talvez para o extermínio da espécie. Aqui, o funesto desígnio dá-se através de ações gananciosas de uns (mais os governantes), do alheamento de outros, que delegam cegamente a responsabilidade pelo gerenciamento das engrenagens das sociedades em que vivem (governados), perdendo-se num coletivo inerte e dos utopistas insensatos, que lutam por ilusões sedutoras e abandonam tentativas mais realistas de solucionar problemas (governantes e governados). No enredo baratas teriam tomado o corpo de líderes políticos com a missão de promover mudanças desorganizadoras da civilização. Deste modo poderiam ocupar mais espaço no planeta que habitam há muitos milhares de anos mais do que o homem. Um dos insetos ocupa o corpo do Primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, e outras baratas de muitos ministros mais. Possivelmente também de governantes estrangeiros, como Donald Trump. Assim executam um plano mirabolante para acabar com a economia através da aprovação da “lei do reversalismo” pela qual as pessoas teriam que pagar para trabalhar e produzir e seriam pagas pelo que consumissem. A deterioração do universo humano viria com os populismos, nacionalismos, sectarismos, o cinismo dos políticos, a transformação dos veículos de informação em propagadores de mentiras ou instrumentos de radicais (o “The Guardian” é citado), a radicalização ignorante de militâncias político-ideológicas, a intolerância, que inclui  a  xenofobia entre suas muitas formas de apresentação, a devastação do meio ambiente, o apego às crenças em soluções estapafúrdias, distantes da realidade ou simplórias demais para a alta complexidade dos problemas. Enfim, tudo muito contemporâneo e de abrangente geografia.

Título da Obra: A BARATA

Autor: IAN McEWAN

Tradutor: JORIO DAUSTER

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

barata

2 comentários

  1. Ai, nem sei a razão, mas não me atrai. Fico com o Mc Ewan de Sábado, Amor sem fim, O enclausurado, Solar. Posso estar enganada. O que é muito provavel. (rs) Beijo, Luís.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário querida Anaelena. Realmente o assunto de que trata este livro não é muito palatável, inclusive por refletir muito do que vivemos no mundo neste momento. Como grande escritor que é, McEwan consegue através do senso de humor e do bom texto (também bem traduzido) criar uma obra agradável de ler.
      Um beijo

      Curtido por 1 pessoa

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