SEROTONINA

Serotonina é uma substância produzida pelo corpo e tem várias ações já conhecidas, no cérebro e em outros sítios. Como neurotransmissor tem protagonismo no controle dos afetos. A desregulação de processos fisiológicos dos quais participa pode levar a sintomas depressivos e ansiosos. Muitos dos antidepressivos disponíveis atuam, pelo menos em parte, através desta via neurotransmissora. Michel Houellebecq (Ilha da Reunião, França, 1956) escreveu um romance usando este título, “Serotonina”. Uso cuja interpretação merece cuidado. O autor faz entrever logo no início da narrativa que seu personagem (quase único) poderá dizer coisas sobre si mesmo e o mundo que são bastante imprecisas e mesmo completamente errôneas. Seus esforços de compreensão sobre quem é ou quem são os outros são processos falhos e de consequências pouco benfazejas. Houellebecq usa duas tônicas para balizar o texto: a primeira é a das dificuldades (barbaridades?) constatáveis na dimensão dos afetos, que em suas “conformações naturais”, sem amarras racionais podem provocar verdadeiros atentados ao bom funcionamento do ser humano. Afetos disfuncionais (independentemente de doenças mentais) desmentem as pretensões idealizadas do sentido de humanidade. Talvez daí a referência à serotonina, também marcada por crenças um tanto absurdas, considerando o que a neurociência diz sobre a substância e suas funções. Problemas atribuídos infundadamente à depressão e mesmo a seu tratamento com antidepressivos são utilizados à guisa de justificativa legítima para as artimanhas que caracterizam a trajetória do personagem. É possível que tais desacertos sejam um recurso do escritor para mimetizar as insensatas contorções explicativas sobre a deterioração da razão e da vontade e da precariedade ética no que as pessoas sentem, pensam e fazem. A segunda tônica, não necessariamente independente da primeira, está no descompasso entre as capacidades de conhecença, de adaptação e gerenciamento construtivo do homem em relação à complexidade ameaçadora do mundo em que vive e que contribui para criar e transformar. Alguma idealização localiza-se mais nas tradições ou concepções do passado, servindo como modelos inatingíveis e melancólicos. Não se veem projeções benignas para o futuro.  A multidimensionalidade do lugar do indivíduo e a velocidade do transitar pelas diversas e díspares dimensões desorienta-o. Valores morais vão esmaecendo até a completa aniquilação. Não sobra espaço para a convivência respeitosa e menos ainda amorosa. As relações são moldadas pelo utilitarismo transitório. Houellebecq parece situar na contemporaneidade aquilo que impede disfarces para a impotência quase irrevogável do homem, além de amplia-la tragicamente. Todavia, não fica descartada a desconfiança de que sempre tenha sido sua real condição de vivente. Resta um vazio, sobre o qual também as racionalizações são ilusórias, pois sua natureza não pode ser determinada pelo homem. Vazio externo à qualquer doença, inclusive à depressão. E resistente. Uma apreciação dura, de quem usa lentes inversas àquelas que desenham concepções românticas do ser humano, por um escritor sem preocupações em tornar palatável o que diz. Não é divertido, mesmo quando faz humor. É cru. Agressivo. Agudo. Talvez verdadeiro.

Título da Obra: SEROTONINA

Autor: MICHEL HOUELLEBECQ

Tradutores: ARI ROITMAN E PAULINA WACHT

Editora: ALFAGUARA

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