O REFORMATÓRIO NICKEL

Racismo, sexismo e generismo são aberrações moldadas culturalmente. Porém, para além das concepções espúrias que as sustentam há a agressividade humana, de origem obscura, que dá-lhes expressão concreta. São formas de estupidez para as quais as justificativas pretendendo validação revelam-se insustentáveis à luz da inteligência. Apresentam-se como preconceitos, exclusão social, negligência deliberada, intolerância religiosa e outras modalidades de estofo para a interação belicosa entre os indivíduos e grupos sociais. A perda da ingenuidade a respeito de pendores humanos para o senso de justiça e práticas solidárias obriga à contenção do otimismo quanto às boas qualidades do homem e alerta para a fragilidade dos processos civilizatórios. Nesta matéria, a agressividade muitas vezes é a face do potencial destrutivo proveniente das pessoas e circulante nas sociedades. Cerne da bestialidade que nunca esteve definitivamente apartada do Homo sapiens sapiens. Traço monstruosamente natural que pode encarnar-se em elementos culturais. Entre somas e subtrações resultam as enormes dificuldades que os indivíduos têm no tratamento com o que é diverso, para a boa convivência interpessoal e também para a preservação da vida. Nesta perspectiva, o termo sapiens (sábio) pode parecer um recurso duplicadamente mentiroso para que que os humanos distingam a si mesmos na Natureza. Colson Whitehead (Nova York, 1969) fala sobre possibilidades de negação da suposta sapiência em “O Reformatório Nickel”, onde trata de crimes praticados contra meninos de má sorte, infratores e não infratores, dentro de uma instituição falsamente educativa na Flórida, EUA. A estória foi inspirada por fatos reais e passa-se principalmente nos anos 1960. No reformatório estão internados garotos brancos e negros. Como é presumível a violência não é distribuída de modo equitativo, a cor da pele é fator de peso para que os meninos sejam recolhidos ou aprisionados e para a aplicação de castigos físicos e morais, o que inclui abuso sexual, tortura e assassinato. Nada que caiba na palavra educação. Cometem-se atos de punição cruel, para os quais são dispensáveis os pretextos. E, vale lembrar que os horrores racistas praticados nos EUA, especialmente no sul, não eram nada comparáveis aos problemas dessa ordem que temos tido no Brasil. O autor, já premiado como o Pulitzer, mostra as vertentes culturais (racismo) e a naturalmente irracionais, talvez instintivas (necessidade de submeter o outro, de infringir sofrimento e se regozijar com ele, de extravasar forças malignas difíceis de conter ou que exigem muito trabalho para sua modificação) da barbárie. Mesmo que as diferentes substâncias de maldades sejam amalgamadas em certos aspectos, Whitehead não cai em armadilhas ideológicas e não se furta a fazer diferenciações necessárias nas possíveis motivações de seus perpetradores, dando relevo à honestidade intelectual. Assim, não escreveu um libelo exclusivamente destinado a falar dos males sociais que afetam as pessoas negras como ele mesmo. Estende-se democraticamente à espécie, sugerindo problemas ainda mais complexos. Livros como este importam para lembrar ao leitor de que é preciso esforço constante se houver intuito de garantir a civilidade mínima numa sociedade e nisto conta o devido reconhecimento dos fatos, por mais dolorosos e repulsivos que sejam. Resta sempre a esperança de que, através da real educação e bom uso da razão, crie-se a possibilidade de controle da ferocidade embutida nos humanos, almejando o Bem.

Título da Obra: O REFORMATÓRIO NICKEL

Autor: COLSON WHITEHEAD

Tradutor: ROGÉRIO W. GALINDO

Editora: HARPER COLLINS

nickel

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