QUANDO ELA ERA BOA

É comum as pessoas acreditarem que a construção do futuro depende predominantemente da vontade de cada um, o que incluiria a capacidade de bem expressa-la. Alguns empenham-se exaustivamente tentando criar no entorno um mundo ajustado a seus valores e crenças. Talvez esforços nesse sentido sejam inescapáveis para todos, mas os modos e intensidades aplicados a isso podem variar consideravelmente. Há os ferrenhos e explícitos na imposição de suas concepções e desejos, há os discretos, há quem aprenda a real humildade, há dissimulados e há também quem desista em algum ponto e instale-se num simulacro de passividade. Frustrações são inevitáveis. Maturidade para o manejo de tais frustrações é uma conquista árdua e não é produto exclusivo nem automático das experiências concretas. A percepção das limitações, próprias e alheias, sua aceitação e o uso realista de potenciais positivamente transformadores nos indivíduos e nas situações contribuem para o desenvolvimento humano. Tolerância e intolerância podem ser excessivas. Perde-se muito com a insensatez neste terreno.

O americano Philip Roth (Newark, 1933 –New York, 2018) usou este tema para escrever “Quando Ela Era Boa”. O protagonismo é de uma mulher e o contraponto fica com o avô dela. Ao interpretar o papel de sua mãe (e da mulher) no casamento como forma de jugo e humilhação ela luta cega e desesperadamente no intuito de criar outras possibilidades para si mesma. Ela não consegue reconhecer a magnitude da complexidade psicológica dos indivíduos. Também não se dá conta da força de determinantes culturais. Além disso, desconsidera o peso do acaso. Cresceu com ódio do pai, no qual percebia as deficiências de caráter e decepcionou-se com o avô que considerava omisso. Tentou desprender-se da família e viver algo distinto. Uma de suas metas passou a ser não se submeter ao comportamento incorreto dos outros, nunca ser conivente. O avô, em que pese aparentar grande diferença em relação ao modo de proceder de sua neta, teve motivações semelhantes ao fazer algo aparentemente oposto: ajustar-se ao ambiente que escolheu e aderir a princípios de suposta tolerância, que seriam melhor descritos como negligência. Substituia a assunção de posições claras e muitas vezes difíceis de bancar diante de conflitos éticos por “ajustes” adequados às convenções sociais. Como numa tragédia do teatro grego a protagonista e quase todos os personagens são atravessados e condenados pelo que não escolheram (às vezes o oposto do pretendido), por fatores mais poderosos do que sua razão e determinação. A magnitude da rigidez revela-se proporcional ao naufrágio e destruição. A complacência conduz, por caminhos menos abruptos, a um processo de desertificação e achatamento do ser. A trama passa-se numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos no final da década de 1940. O modo de pensar do americano de classe média pós-segunda guerra mundial, quando não havia muitas mídias empenhadas na crítica de costumes capazes de penetrar as muralhas da rigidez moral, também é personagem. E, nenhum deles escapa ao destino feito (em grande parte) à revelia do indivíduo e pouco presumível à partida. Só intuído muito tardiamente, já perto do ponto de chegada, quando já há pouco que remediar.

Título da Obra: QUANDO ELA ERA BOA

Autor: PHILIP ROTH

Tradutor: JORIO DAUSTER

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

boa2

2 comentários

  1. Ainda não li esse Philip Roth, tenho vontade. Agora, finalmente, vou ler Pastoral Americana. Sei que você gosta demais. Um beijo, Luís. E, mais uma vez, muito obrigada por suas ótimas resenhas.

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