LIBERAIS E ANTILIBERAIS – A LUTA IDEOLÓGICA DO NOSSO TEMPO

Em momentos tão conturbados como o que vivemos atualmente no Brasil, pode ser de grande valia conhecer as ideias dos  cientistas políticos. Em “Liberais e Antiliberais”, Bolívar Lamounier discute aspectos que fundamentam as democracias representativas, passíveis de serem instaladas em regimes orientados pelo liberalismo político. Aborda também as crenças que levam certos grupos a preferirem governos autoritários. Com texto claro, que deixa entrever sua erudição, o autor traça um painel rico sobre o tema e conduz o leitor pelos meandros de seu sofisticado pensamento. Dispensa a polarização esquerda-direita, substituindo-a pela antítese liberalismo democrata e  totalitarismo. Este último dividido em duas vertentes: os fascismos e o marxismo-leninismo. A leitura desta obra propicia estímulo e subsídio para a reflexão.  Lamounier toma de empréstimo o curioso construto metafórico dos “ídolos”, proposto por Francis Bacon (1561-1626) e usado por este para apontar o falseamento que pode distorcer uma  investigação sistemática no campo das ciências naturais. Lamounier adapta o modelo às ciências humanas para tratar de temas como individualismo e holismo, ideologia em contraposição a realidade, bases motivadoras das ações revolucionárias e as deformações conceituais usadas na construção de teorias espúrias, que enganam e servem para manipular pessoas. A tônica do livro é a demonstração de que os regimes totalitários partem de premissas teóricas peculiares e um tanto artificiais. Buscam aplica-las, forçadamente, na interpretação da realidade para molda-la a determinadas ideologias, criar estratégias ilusionistas de convencimento e submeter a população aos interesses e comando de um pequeno grupo ou líder. Tais estratégias são artifícios maléficos, que alijam os indivíduos da realidade e os tolhem de participação ativa na resolução de problemas objetivos. Além disso, visam reduzir a autonomia individual na construção dos vínculos sociais. Neste bojo, ele analisa o conceito de holismo como hipótese sobre o funcionamento de uma sociedade, que passa a ser tomada enquanto um todo bastante pasteurizado, esvaziando a importância primária dos problemas e dificultando seu manejo. O todo teria “precedência  em relação às partes de que se compõe”. Todavia, o autor faz notar notar que mesmo considerando os problemas sociais como elementos não isolados, eles devem ter uma dimensão focal de análise e de resolução, pois não se pode harmonizar o todo de maneira direta.  No holismo o indivíduo em sua singularidade e as diversidades presentes nos grandes grupos humanos são desprezados. Tais teorizações a priori, assim como a imposição da vontade de um líder ou pequeno grupo munido da força coercitiva criariam um abismo entre governantes e governados.  Em contraposição a isto o autor mira as democracias representativas liberais. Estas são descritas como sistemas complexos, estruturados a partir da instauração e valorização das instituições, dotadas para mediarem conflitos inevitáveis em sociedades compostas por indivíduos e grupos distintos com demandas diferentes entre si. É preciso que as pessoas possam eleger representantes para a governança e, especialmente, que exerçam pressão constante para que estes mantenham-se fieis à missão para a qual foram eleitos. Pelo olhar do autor, talvez assim se possa alcançar maior justiça social. De modo realista.
Autor: BOLÍVAR LAMOUNIER
Título da Obra: LIBERAIS E ANTILIBERAIS – A LUTA IDEOLÓGICA DE NOSSO TEMPO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
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