ENCLAUSURADO

Quando um escritor publica um grande livro, ficamos sempre esperando que ele nos apareça com outro do mesmo porte, a cada novo trabalho que produz. Parece-me ser o caso de Ian McEwan, desde quando nos presenteou com o excelente “Reparação” em 2001. Seus romances e contos são sempre bons. Neste ano surgiu “Enclausurado” (“Nutshell”, o título original). Estruturalmente tem semelhanças com um grande conto, tanto pelo recorte focal da estória quanto pela precisão formal do texto e o papel que é atribuído ao leitor. Também temos de volta, mais vivo, o humor típico de McEwan. O enredo trata de eventos narrados por um feto, que nas últimas semanas da gravidez tem que lidar com a ruína do casamento dos pais, a presença do amante da mãe, que também é seu tio e com o ardil dos dois para assassinarem seu genitor, no intuito de se apossarem de sua valiosa casa. Alusão a Shakespeare em Hamlet. Talvez homenagem. Em todo o caso, o mais interessante reside nas observações feitas por parte do humano sendo gestado, derivadas da impossibilidade de avaliar com exatidão o que se passa e de interferir de modo eficaz nos acontecimentos que põem em risco a possibilidade dele vir a ter ter sua chance de existir nesse mundo pouco atraente, mas não menos desejável. Relegado à impotência de sua condição e ao mesmo tempo capaz de observar com perspicácia as vicissitudes do comportamento dos parentes (especialmente de sua mãe, à quem está propenso a amar, mas, que mostra-se pouco merecedora de autênticos sentimentos desta ordem), ele toca em questões da vida, presentes em qualquer de seus estágios. Novamente não tivemos o autor tão inspirado quanto estava em “Reparação”, mas, mesmo assim, escrevendo muito bem.
Título da Obra: ENCLAUSURADO
Autor: IAN McEWAN
Tradutor: JORIO DAUSTER

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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5 comentários

  1. Luís, que bom que você escreveu sobre “O enclausurado”. Vou correndo comprar. Sou fã de carteirinha do McEwan, acho que você sabe. Só não li ainda porque estava terminando de ler “Desonra”, aliás, você já leu o J. Coetzee? Eu não havia lido. Gosto, gostei, mas não me apaixona. Aproveito pra perguntar se você leu “Tempo de espalhar pedras”, de um jovem autor brasileiro, Estevão Azevedo. Achei magnífico. Beijos, boa semana.

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  2. Obrigado pelo comentário, querida Anaelena. Também sou fã de carteirinha do McEwan. Gostei muito de “Desonra”, achei o melhor livro de Coetzee. Vou procurar o livro de Estevão Azevedo. Obrigado pela dica.
    Bj

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  3. Olá, como vai? Você me passou seu blog quando comprou um livro comigo na Leitura. Por coincidência reparei em Enclausurado na mesa de lançamentos anteontem e hoje vejo que fez uma pequena resenha. Por não seguir o convencional, acredito que ele merece ser empurrado mais para o topo da minha lista. Estarei sempre por aqui. Abraços.

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