VOZES DE TCHERNÓBIL

Há quem saiba ouvir o outro e não só a si mesmo. Até onde é possível. Talvez, aqueles capazes disso sejam pessoas mais permeáveis ao mundo e mais fortes, sem medo de dissolução no discurso daqueles a quem ouvem. Quem ouve melhor costuma poder dizer mais quando se manifesta. Ganha recursos para superar a pasteurização dos discursos. Alfabetiza-se incessantemente para apreender a diversidade naquilo que pode parecer enganosamente idêntico. São indivíduos que não se assustam facilmente. Podem tolerar os paradoxos sem aplicar-lhes a fácil manobra da anulação. Podem até olhar para o homem como o portador, perpetrador e vítima, simultaneamente, da contradição entre Bem e Mal. Duras tarefas, das quais Svetlana Aleksiévictch (Ucrânia, 1948), ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, incumbe-se com brilhantismo. Ela mostra coragem  e talento para escrever sobre temas duros, salvaguardando um tipo de beleza. Seu livro “Vozes de Tchernóbil” é construído a partir de breves depoimentos de gente que de modos distintos foi atingida pela tragédia da explosão de um reator da usina atômica ucraniana de Tchernóbil, em abril de 1986. Essa usina foi instalada numa região bucólica e rodeada por aldeias, onde os habitantes pouca noção tinham do significado de átomo ou de radioatividade. Aleksiévictch capta com ouvidos poéticos o espanto, o aturdimento e outros sentimentos diante de um perigo invisível e de grande magnitude. A autora colhe testemunhos de camponeses habitantes das redondezas, de técnicos e de leigos que trabalharam (quase às cegas) para tentar controlar os danos causados pelo acidente. Pessoas relativamente simplórias, que agiram como soldados numa guerra, seguindo automaticamente ordens de “superiores”, os quais desde o início tinham noção das dimensões da destrutividade no acontecido. Há comoventes falas de familiares das vítimas sobre a missão de cumprir um dever cívico, trabalhando no local do desastre. Nessa mesma época a União Soviética já passava pelo que acarretaria as profundas mudanças que viriam a ser conhecidas, em conjunto, como Perestroika e Glasnost. Esse processo acabaria por contribuir decisivamente para o desmoronamento do mundo em que viviam encerradas as populações heterogêneas das Repúblicas componentes da União. Desde a revolução de 1917, primeiro a Rússia e depois o conjunto de países anexados, foram gradualmente sendo isolados do resto do planeta. Isso acentuou-se com a ascensão de Joseph Stalin. Os indivíduos foram sendo reduzidos à condição de peças de uma engrenagem. Passaram a ser “corrigidos” ou moldados para melhor atenderem às determinações de lideranças do Partido Comunista que supostamente objetivavam o bem comum. Foi doloroso para o povo deixar de ser povo para tornar-se massa. A submissão dava-se através da criação de ilusões endereçadas ao futuro e da fomentação do medo com faces variadas, que anulava quase completamente a autonomia individual para pensar e agir. A partir da Perestroika e Glasnost e da dissolução da URSS fatos chocantes tornaram-se faláveis e visíveis. Causaram perplexidade e indignação nas pessoas, que começaram a se dar conta do engodo e da barbárie a que tinham sido submetidas. Parece ter ocorrido algo como um “renascimento do indivíduo” com a tomada de consciência de partes assustadoras do projeto de vestes tão nobres. A devoção ao Estado e aos líderes passou a ceder espaço a reflexões sobre o que era realmente justo ou injusto para com o ser humano em sua singularidade ou coletividade. Surgiram informações incontestes sobre os Gulags e as mortes lentas dos opositores ao regime, por fome e frio na Sibéria, sobre o Holodomor, sobre os assassinatos em massa, como os da floresta de Kuropati, em grande parte induzidos pela NKVD (Comissariado do Povo Para Assuntos Internos), sobre as manobras para romper os vínculos interpessoais, voltando as fidelidades exclusivamente para o Estado e mais. O cruzamento entre o que se experimentava em razão do acidente atômico e o esfacelamento das ilusões vinculadas ao sentido da existência da URSS diante de tão duras revelações produziu nas pessoas a sensação de viver uma tragédia em que já não se sabia mais de onde brotou o mal maior. O que teria sido pior, a reprodução da atávica violência na tentativa de dominação perpetrada pelo homem contra o homem ou a desgraça pela falta de controle de uma tecnologia desenvolvida para beneficiar a vida, mas que acabou por ser transmutada em condenação à doença e morte? A escritora, ao colher os depoimentos, não deixa escapar a observação dos aspectos mais universais da natureza humana que, apesar das peculiaridades locais e de aparente circunstancialidade, estão presentes potencialmente também no leitor. A despeito da distância geográfica, temporal ou de contexto discute-se o valor da vida em mais de uma perspectiva. Enfim, há muito para o que olhar neste interessante livro, que funde a estética narrativa da boa literatura de ficção com o impacto realista de uma grande matéria jornalística.
Título da Obra: VOZES DE TCHERNÓBIL
Autora: SVETLANA ALEKSIÉVICTCH
Tradução: SÔNIA BRANCO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
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