VOZES DE TCHERNÓBIL

Há quem saiba ouvir. Escutar o outro e não só a si mesmo. Pelo menos, até onde é possível. Talvez sejam pessoas mais permeáveis e fortes, sem medo de auto dissolução no discurso de alguém. E, com isso passam a ter muito a dizer. Não pasteurizam o teor do dito. Alfabetizam-se para apreender a diversidade naquilo que pode parecer idêntico. E não se assustam facilmente. Podem tolerar os paradoxos sem aplicar-lhes a fácil manobra da anulação.  Suportam até olhar para o homem, enquanto portador, perpetrador e vítima, simultaneamente da contradição entre Bem e Mal. Duras tarefas, das quais Svetlana Aleksiévictch, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, incumbe-se com brilhantismo. Ela exibe a coragem  e o talento para escrever com beleza sobre temas duros. Seu livro “Vozes de Tchernóbil” é construído à partir de breves depoimentos pessoais dos que, de algum modo foram atingidos pela tragédia que foi a explosão de um reator da usina atômica ucraniana em abril de 1986. A usina de Tchernóbil foi instalada numa região bucólica e rodeada por aldeias, onde os habitantes pouca noção tinham do significado de átomo ou de radioatividade. Aleksiévictch capta, com ouvidos poéticos, o espanto, o aturdimento e variados sentimentos diante de um perigo invisível e tão ameaçador. A autora colhe testemunhos de camponeses, habitantes das pequenas localidades próximas,  de técnicos e leigos que trabalharam (quase às cegas) para tentar controlar os danos causados pelo acidente, homens relativamente simplórios, que agiam como soldados numa guerra, seguindo automaticamente ordens superiores e também de funcionários mais qualificados, que desde o início tinham noção das das dimensões trágicas do acontecido. Há também as comoventes falas de familiares destas vítimas, voluntárias ou não, sobre missão de cumprir um dever cívico, trabalhando no local do desastre. Nessa mesma época a União Soviética passava pelas profundas mudanças, conhecidas, em conjunto como Perestroika e Glasnost. Este processo acabaria por contribuir decisivamente, para o desmoronamento do mundo em que viviam encerradas as populações heterogêneas das Repúblicas componentes a União. Desde a revolução de 1917, primeiro a Rússia e depois o conjunto de países anexados, foram gradualmente sendo isolados do resto do planeta. Isto se acentuou com a subida ao poder de Joseph Stalin. Os indivíduos foram sendo reduzidos à condição de peças de uma engrenagem. Passaram a ser “corrigidos” ou moldados para melhor atenderem às determinações de lideranças do Partido Comunista, que supostamente objetivavam o bem comum. Foi doloroso para o povo deixar de ser povo para tornar-se massa. A submissão se dava através da criação de ilusões endereçadas ao futuro e do estabelecimento do medo, que anulava quase completamente a autonomia individual para pensar e agir. A partir da Perestroika e Glasnost, acarretando a dissolução da URSS, as verdades começaram a aparecer. Causaram perplexidade e indignação nas pessoas, que começaram a se dar conta do engodo e da barbárie a que tinham sido submetidas. Era o renascimento do indivíduo. E a tomada de consciência do horror. A devoção ao Estado e aos líderes passou a ceder espaço à reflexões sobre o que era realmente justo ou injusto para o ser humano em sua singularidade ou coletividade. Surgiram informações incontestes sobre os Gulags, sobre as mortes lentas dos opositores ao regime, por fome e frio na Sibéria, sobre os assassinatos em massa, como os da floresta de Kuropati, em grande parte induzidos pela NKVD (Comissariado do Povo Para Assuntos Internos), sobre as manobras para romper os vínculos interpessoais, voltando as fidelidades exclusivamente para o Estado e muito mais. O cruzamento entre o que se experimentava em razão do acidente atômico e o esfacelamento das ilusões comunistas à custa de tão duras revelações produziu nas pessoas a sensação de tragédia inescapável, em que já não se sabia mais de onde viria o mal maior. O que teria sido pior, a violência mais visível perpetrada pelo homem contra o homem ou a desgraça pela falta de controle de uma tecnologia desenvolvida para beneficiar, mas que acabou por ser transmutada em condenação à doença e morte, parecendo abstrata em sua ação? A escritora não deixa escapar a observação dos aspectos mais universais da natureza humana, que apesar das roupagens locais e de aparente circunstancialidade estão presentes potencialmente também no leitor. À despeito da distância geográfica, temporal ou de contexto discute-se o valor da vida, para além do sentido biológico. Enfim, há muito para o que olhar neste interessante livro, que funde a estética narrativa da boa literatura de ficção, com o impacto realista de uma grande matéria jornalística.
Título da Obra: VOZES DE TCHERNÓBIL
Autora: SVETLANA ALEKSIÉVICTCH
Tradução: SÔNIA BRANCO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

 

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