A CIÊNCIA, O COMPLICADO E O COMPLEXO

Vez por outra alguém manifesta decepção com a eficácia da ciência para desvendar os mistérios  do mundo. Frustrações sobre resultados das pesquisas científicas partem de variados setores da sociedade. Mesmo com o advento de tecnologias cada vez mais sofisticadas a ciência, especialmente em seus ramos que voltados para os eventos da natureza (incluindo o ser humano), geralmente dispõe de instrumentos insuficientemente precisos para dar respostas exatas às perguntas formuladas e para a interpretação dos dados obtidos. Quase sempre o conhecimento neste campo deriva das estimativas, aproximações e interpretações sobre eventos reais que não são diretamente aquilatáveis. As informações com que se lida não os reflete de modo especular. E são geralmente parciais. Vale a pena levar-se em conta que existem diversas teorias sobre o conhecimento. Conforme o referencial teórico  utilizado haverá possibilidades de compreensão de aspectos distintos de um mesmo problema e que não são independentes do cabedal prévio de informações que as contextualiza. A epistemologia é um ramo da filosofia da ciência (ou das ciências) que estuda a natureza dos diversos processos relativos à produção de conhecimento. E há um verdadeiro universo de possibilidades. Aqui, um exemplo de abordagem epistemológica específica é a de tomar os fenômenos que pretendemos analisar cientificamente como sendo mais do que complicados. Considerando a complexidade que os rege nos sistemas que habitam. Há uma diferença importante entre os termos complicado e complexo, nesta acepção. Edgar Morin e Marc Halévy, entre outros, forjaram teorias sobre isto. Com eles parte-se da perspectiva de que  aquilo que é complicado é passível de ser decomposto, analisado e decifrado a partir da identificação das partes que compõem o todo, de suas inter-relações e de sua soma. Os elementos componentes constituem unidades definidas e que não se modificam essencialmente na inter-relação com outras unidades da mesma composição. No entanto, conforme as perguntas que pretendamos responder surgirão dificuldades de análise em função das interações das partes de um todo. Eventualmente há transformações destas partes por inter-influência e/ou produção de novos elementos não previstos em relação ao estado original desse sistema (nome que podemos dar a este todo). Muitos sistemas podem ser entendidos como abertos e vivos, transformando-se de modo incessante e imprevisível. Então, teremos a curiosa situação em que o todo não coincide exatamente com a soma de suas partes inicialmente consideradas.  Novas partes estarão sempre surgindo, “filhas” da interação de outras partes pré-existentes entre si e com o todo num determinado momento, ou seja, o sistema estará sempre se renovando. Talvez a realidade e o próprio ser humano devam ser mirados também nesta vertente. Novas questões estarão sempre surgindo, desafiando o conhecimento científico e os métodos de pesquisa. Contudo, os esforços e produtos da atividade científica, em qualquer de suas modalidades, são potencialmente preciosos para a preservação e melhoria da vida. Mesmo que não resolvam a totalidade de nossos problemas e não nos permitam a completude na apreensão do mundo. Cabe-nos bem dize-los.

A ilustração é foto de tela de Ernani Pavaneli – PEIXES I – Acrílico sobre Tela 80X60cm

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