A CIÊNCIA, O COMPLICADO E O COMPLEXO

Às vezes alguém manifesta decepção com a eficácia da ciência para desvendar os mistérios  do mundo. Frustrações sobre resultados das pesquisas científicas partem de variados setores da sociedade. São pertinentes questões sobre se estes resultados respondem apropriadamente a perguntas bem formuladas, se tanto as perguntas quanto respostas são relevantes para resolução de problemas concretos, o quanto o conhecimento gerado por pesquisas são aplicáveis nas práticas ou em que podem auxiliar verdadeiramente os seres humanos em suas dificuldades. O trabalho dos verdadeiros cientistas não é nada fácil. Mesmo com o advento de tecnologias cada vez mais sofisticadas a ciência, especialmente em seus ramos voltados para os eventos da natureza (incluindo o ser humano) geralmente dispõe de instrumentos insuficientemente precisos para dar respostas adequadas às perguntas formuladas. Há desafios tanto para a geração de dados quanto para sua interpretação, assim como para o que se pode fazer com eles. Quase sempre o conhecimento neste campo deriva das estimativas de caráter quantitativo e de deduções e extrapolações qualitativas, aproximações e modos de compreensão passíveis de contaminação por algum grau de subjetividade. Eventos reais em geral não são diretamente aquilatáveis na extensão e exatidão desejáveis. As informações científicas com que se lida não os refletem de modo especular. E correm grande risco de serem marcadas por parcialidades. De modo ideal na busca de conhecimento pretende-se encontrar informação precisa, verdadeira, útil e (algo ainda mais difícil) durável. Entender o que é e como pode ser produzido o conhecimento torna-se algo bastante importante. Existem muitas e diversificadas teorias sobre isso. Conforme o referencial teórico  utilizado existem possibilidades de abordagens e teorizações diferentes sobre um mesmo problema e que não são independentes do cabedal prévio de informações que as contextualiza. A epistemologia é um ramo da filosofia da ciência (ou das ciências) que pretende estudar a natureza, situação e o modo de produção do conhecimento. Há um verdadeiro universo de possibilidades. E complicações. A tarefa de produzir uma pesquisa científica exige cuidado com suas sucessivas fases. Grandes desafios. Análises, entendimentos e conclusões podem demandar portentosos esforços intelectuais. Nesse campo vale mencionar um tipo de abordagem epistemológica que é a de tomar os fenômenos que se pretende estudar cientificamente como sendo mais do que complicados e mirar a complexidade (numa acepção descrita abaixo) que os rege nos sistemas que habitam. Neste sentido há uma diferença importante entre os termos complicado e complexo. Edgar Morin e Marc Halévy (e outros contribuíram) forjaram teorias para explicar seu ponto de vista neste tema. Com eles parte-se da perspectiva de que  aquilo que é complicado é passível de ser decomposto, analisado e decifrado a partir da identificação das partes que compõem o todo, de suas inter-relações e de sua soma. Os elementos componentes constituem unidades definidas e que não se modificam essencialmente na inter-relação com outras unidades da mesma composição, há uma certo grau de fixidez. No entanto, conforme as perguntas que pretendamos responder surgirão dificuldades de análise em função das interações das partes de um todo. Talvez instabilidade. Eventualmente há transformações destas partes por interinfluência e/ou produção de novos elementos imprevisíveis, em relação ao estado original desse sistema (nome que podemos dar a este todo em que os elementos se inserem e eventos ocorrem). Muitos sistemas podem ser entendidos como abertos e vivos, transformando-se de modo incessante e imprevisível. Então, teremos a curiosa situação em que o todo não coincide exatamente com a soma de suas partes inicialmente consideradas.  Novas partes estarão sempre surgindo, “filhas” da interação de outras partes pré-existentes entre si e com o todo num determinado momento, ou seja, o sistema estará sempre se renovando. Qualquer modo de fixação de um de seus estados para tentar estudá-lo será um artifício perigoso para a adquirir legítimo conhecimento sobre ele. Talvez a realidade e o próprio ser humano devam ser olhados também por essa vertente. Novas questões estarão sempre surgindo, desafiando um saber científico alcançado e os métodos de pesquisa. Evidências sobre qualquer assunto devem ser postas sempre em cheque. Elas tendem a caducar e passam por mudanças ou são descartadas com novas descobertas; e em sua diversidade ocupam lugares diferentes numa hierarquia sobre o que podem dizer sobre algo. Em conjunto funcionam melhor do que isoladamente. Não há evidências absolutas, assim como não há conhecimento permanente ou definitivo. Contudo, os esforços e produtos da atividade científica, em qualquer de suas modalidades, são potencialmente preciosos para a preservação e melhoria da vida. Mesmo que não resolvam a totalidade de nossos problemas e não nos permitam a completude na apreensão do mundo. Cabe-nos bem dize-los.

A ilustração é foto de tela de Ernani Pavaneli – PEIXES I – Acrílico sobre Tela 80X60cm

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