REPARAÇÃO

O insólito é quase um personagem na obra de Ian McEwan. De modos variados e sempre sutis esta característica que permeia a vida das pessoas, marca suas tramas e submete os personagens. A imprevisibilidade é uma de suas muitas faces. “Reparação” é provavelmente o maior romance deste britânico tão premiado. Construído com excelência, nunca priva o leitor dos sabores essenciais ao prazer da leitura. Mas, não se restringe a isto. McEwan seduz pela forma e pelo conteúdo. Talvez o tema mais constante em seus livros, incluindo este, seja a discussão sobre capacidade para a reflexão e comportamento ético de que podem dispor os indivíduos. Nada é óbvio. Aquilo que parece dado de imediato revela-se insuficiente, se não francamente enganoso. As questões com as quais seus personagens têm que se defrontar mostram-se aos poucos e estabelecem uma sofisticação à trama insuspeitada num primeiro momento. Refletem eventos ou possibilidade da vida de todos nós. Assim como o insólito no que experimentamos. Atraem-nos também por isto. Neste livro encontramos personagens capturados pelo engano que uma criança comete na interpretação de uma cena que presencia. Devido aos valores a que está tentando ser fiel, para que possa entrar no mundo dos adultos como alguém a quem se deve ouvir, ela toma providências que terão consequências profundamente transformadoras na vida de outros personagens. Seu engano e ato à ele inerente abrangerão os destinos daqueles que, estando a seu lado, não lhe eram suficientemente visíveis. E os enganos multiplicam-se como que descendendo do primeiro. A engenhosidade do escritor só torna isto compreensível ao final da leitura. ele surpreende como poucos criadores são capazes de fazer. E com tanta verdade, que não podemos nos furtar ao desconcerto, junto da admiração que passamos a sentir por seu talento. Olhamos para mais um dos elementos trágicos da vida: causarmos mal quando movemo-mo-nos para fazer o bem. A incerteza inescapável quanto ao que se constitui em mal e em bem. A impossibilidade de permanecer na neutralidade. A nossa responsabilidade pelo que somos e fazemos, mesmo que não o tenhamos escolhido. A incômoda diferença entre responsabilidade e culpa. O preço a pagar para não dissolver a ética.

Título da Obra: REPARAÇÃO

Autor: IAN McEWAN

Tradutor: PAULO HENRIQUES BRITTO

Editora: COMPANHIA DAS LETRASREPAR

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