As tarefas envolvidas em dar sentido ao que se palpa no mundo, assim como ao supra palpável, são mais desafiadoras do que parecem. Tudo pode permanecer desconfortavelmente estranho ou transformar-se numa espécie de parede contra a qual se há de viver espremido. Criar vínculos consistentes com os outros também não é fácil. Dimensionar o que acontece e estimar o que está por acontecer é para poucos. Desfrutar das conquistas ou da boa sorte que se tem é habilidade que exige talento pessoal, incluindo humildade. Valorizar a vida não é algo banal.
“TREM NOTURNO” de Martin Amis (Inglaterra, 1949 – EUA, 2023) é um romance curto que ilude o leitor, parecendo um livro policial. A trama gira em torno de uma linda e jovem mulher que comete suicídio. Parecia algo tão improvável para as pessoas de seu círculo, que surge a suspeita de homicídio, acrescendo-se de que são detectadas três balas disparadas contra sua cabeça. Inteligente, saudável, bem estabelecida como astrônoma e casada com um colega de profissão que a amava e a quem ela parecia amar, parecia alguém feliz. A policial Mike Hoolihan, muito amiga do pai da moça, que também é da polícia, encarrega-se da investigação. Camadas narrativas subjacentes às impressões de primeira hora dissolvem o que parece estruturar uma obra de suspense ou de ação.
Atentados à vida adquirem significados diferentes conforme há reflexão sobre como e por que acontecem. Chocam e intrigam as causas para as pessoas matarem a si mesmas ou a outras. A esta seara chega Mike Hoolihan. O tratamento que a detetive dá ao que descobre faz transparecer a sofisticação de Martin Amis. A destrutividade, muito humanamente, pode revelar-se determinada por componentes marginais à razão. Frequentemente está associada à banalidade do funcionamento mental. As explicações intrincadas servem menos para elucidar o ímpeto de destruir do que a consideração da tendência a abreviações e cancelamentos no sopesamento da realidade, deixando os indivíduos mais expostos a seus impulsos ou premeditação desarrazoada. Curiosamente, a possibilidade de aniquilar a si mesmo ou a alguém por motivos fúteis acomete a pessoas de extensa gama de estratos sociais e educacionais, no olhar de Amis. Precariedades até certo ponto invisíveis, residem na debilidade de percepção da própria identidade, nos rumos dados ao viver e na distância em relação aos outros, levando à superficialidade afetiva, escassez de comunhões amorosas e, por fim, à solidão radical. Elementos estes que podem engendrar frustrações incontornáveis e ódios ferozes. Embora os gatilhos variem, é comum que girem em torno da incapacidade de erigir uma história que faça a vida desejável. Se há mistérios, eles parecem residir mais na crueza e na trivialidade do que na complexidade das questões que as pessoas podem articular.
Título da Obra: TREM NOTURNO
Autor: MARTIN AMIS
Tradutor: CID KNIPEL MOREIRA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
