O OUTRO

“O OUTRO” é o título do conto de Jorge Luis Borges (Argentina, 1899 – Suíça, 1986) que abre “O LIVRO DE AREIA” sua última coletânea, publicada em 1975.

Neste conto Borges trata de duas questões que sempre lhe foram caras: o tempo e a identidade. Aqui entrelaçados. O enredo é sobre o encontro de Jorge Luis Borges, já idoso, com um jovem num banco de um parque. O rapaz é ele mesmo em outro período da vida, décadas antes. Eles estão em cidades diferentes, o Borges idoso em Cambridge, nos EUA, e o Borges jovem em Genebra, na Suíça, mas estão sentados no mesmo banco. Ao conversarem, o mais velho consegue reconhecer-se com facilidade no mais novo, para quem isto é menos óbvio. Ambos sentem estranheza. Perturbam-se.

O tempo mostra-se nas transformações que afetam toda a gente e seu entorno. Em seu percurso uma pessoa nunca permanece a mesma (como quase todo o resto), ainda que preserve algo que lhe confere a impressão de o ser. São várias as dimensões da identidade de cada um. As identidades situam-se entre os eixos do que permanece e o do que se modifica, lembrando um pouco as ordenadas e abcissas do plano cartesiano. Organizam-se e evoluem neste espaço. Lembrando que os eixos de orientação não contêm tudo o que é constitutivo das identidades, há bem mais. E, quase contraditoriamente, a imprecisão é regra ao se procurar definir uma identidade, o que permanece e o que muda. Como é temerário afirmar categoricamente quem se é! No entanto, como norma há o sentimento de ser alguém, singularmente, pela vida afora. Um indivíduo visto em dois momentos distintos é como se não fosse um só, mas dois, “diferentes demais e parecidos demais”, como diz o autor. Se pudessem dialogar teriam dificuldades de se tomarem por um único. O conto põe lado a lado o infactível com o que é desafiadoramente verdadeiro.

O filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso (citado aqui por Borges) já havia dito alguma coisa como: não há quem possa banhar-se duas vezes num mesmo rio, pois ninguém permanece o mesmo e nem as águas são as mesmas. Vários autores trataram deste tema em contos, romances e ensaios e talvez também na vida cotidiana muitos o façam. Contudo, a impermanência raramente se torna familiar, nunca banal. É o reinar do indomável tempo, remodelando o mundo. Todos existindo naquilo que lhes escapa.

Mutabilidade e perecibilidade dão rosto ao tempo. Tornam-no menos abstrato e mais imperativo. Dissolvem anseios de autonomia e de poder do homem sobre si mesmo e sobre o universo em que trafega. A provisoriedade não pode ser antecipada e controlada. Percepção difícil de aceitar com benevolência, desconcertante, muitas vezes amedrontadora. O imorredouro revelado como uma noção ficcional ou então mística. Não é própria da realidade. Sustentar a fixidez demanda imaginação, fantasia, negação, crença hermética ou fé. O contrário é alcançável para os que quiserem e puderem ver.

Na ilustração: foto de obra de Wassily Kandinsky (Rússia, 1866 – França, 1944)

Título da Obra: O OUTRO (parte de “O LIVRO DE AREIA”)

Autor: JORGE LUIS BORGES

Tradutor: DAVI ARRIGUCCI JR.

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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