DEDICO A VOCÊ MEU SILÊNCIO

Um escritor pode ter diversas motivações para se dirigir ao mundo. Talvez isto varie al longo de sua vida, assim como mudam suas interpretações sobre o que vê e os sentimentos que circulam por seu ser. Mario Vargas Llosa (Arequipa, Peru, 1936 – Lima, 2025), um dos mais premiados autores de língua espanhola, incluindo o Nobel em 2010, é um exemplo de maestria no que escreveu e de coragem para se transformar e para sobreviver aos que ferozmente o criticaram ou desqualificaram. Vem seguindo guiado pela capacidade de repensar, refazer entendimentos e opiniões, mesmo que o estilo não tenha se alterado tanto quando se observa o conjunto de sua obra.

“DEDICO A VOCÊ MEU SILÊNCIO” é o romance anunciado por Llosa como ponto final em seu trabalho de ficção (ele pretende publicar ainda um ensaio sobre Sartre). Conta parte da vida de Toño Aspilcueta, filho de um italiano e uma peruana, talvez um representante da diversidade étnica e cultural da população. O personagem dedica-se a estudar a música “criolla”, em especial a “valsa peruana”. Havia cursado a universidade e tinha doutorado incompleto sobre as manifestações estéticas populares de sua terra. Sem popularidade nem valorização por parte dos intelectuais, vivia pobremente somando o pouco recebido por alguns artigos sobre música peruana aos proventos de sua esposa. Um dia é convidado a ouvir um violonista chamado Lalo Molfino e, profundamente tocado pelo talento excepcional do músico, decide escrever um livro sobre ele. Todavia, o que escreve contém uma afirmação muito maior do que a biografia de Lalo. Aspilcueta diz que a música tradicional do Peru poderia dissolver a fragmentação social e unir as pessoas de diversas origens, com vidas díspares, numa fraternidade nacional. O mote torna o livro um grande sucesso e traz-lhe reconhecimento temporário.

Este romance é um fecho curioso para a obra de Llosa. Uma extensa metáfora. Contém percepções do escritor sobre o país onde nasceu e a respeito do ser humano em geral, além do anseio de acreditar em condições melhores para a sociedade peruana e outras da América Latina, talvez para o mundo. Aponta para falácias vigentes, tão polarizadoras, que instrumentalizam os impulsos hostis de cada homem e de “irmandades” para com outros. Frisa a necessidade de pensar no funcionamento humano para além de recortes maniqueístas, que a tantos ludibriam e reduzem ao papel de “massa de manobra”. Valoriza o que se pode produzir e compartilhar através dos afetos confraternizadores. Cita bastante a música e aqueles que a fizeram e continuam fazendo. Aborda os problemas que afligem os homens nas sociedades como algo que só teria solvência não nas disputas ideológicas, mas no desenvolvimento da capacidade das pessoas sentirem o que são e o que poderiam ser umas para as outras. Dá importância à reflexão crítica sobre informações que circulam, constituindo o que cada um conhece do mundo em que vive, no presente e no passado. Fala do desafio de se compreender a História para além dos estereótipos e de criá-la no que se vive objetivando construir realidades melhores. Grifa a necessidade dos indivíduos defenderem-se dos engodos a que estão sempre sujeitos por propostas que nunca encerram a verdade, mas que impõem a ilusão de a conter. O que parece ingênuo, “huachafería”, convida o leitor atento a contornar falsas impressões, tanto sobre autor fictício quanto sobre o real, que poderiam enganá-lo, e mirar a sofisticação e coragem que marcam Llosa como pensador. Mesmo na iminência de ter que silenciar.

Título da Obra: A VOCÊ DEDICO MEU SILÊNCIO

Autor: MARIO VARGAS LLOSA

Tradutores: PAULINA WACHT e ARI ROITMAN

Editora: ALFAGUARA    

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