BAUMGARTNER

Paul Auster (EUA, 1947-2024) foi um dos escritores que marcaram a contemporaneidade literária. Admirado por públicos diversos. Seu último romance foi “Baumgartner”.

Em “Baumgartner” encontramos o personagem título já maduro, viúvo e ainda ativo tanto nas circunvoluções afetivas quanto intelectuais. Ele é um professor de filosofia aposentado, autor de muitos livros. Teve um casamento vivaz do início ao fim, quando sua mulher sofreu um acidente fatal numa praia. Depois de sua morte ele viveu um luto prolongado, que se transformou em culto ao que ela foi para ele. Sorve diariamente o amor concebido na relação deles e que se incorporou profundamente ao seu ser, para sempre. Neste aspecto, importa o sentido que pode ter o que chamamos de amor. Não se recorre para tal noção aos amalgamentos que acabam por apagar extensas áreas dos parceiros. São pessoas essencialmente distintas, que se querem de muitas maneiras e preservam-se no respeito por aquilo em que não coincidem, que não compreendem no outro e que é fundamental para que continuem sendo almas vivas. Pessoas que se reconhecem solidariamente e se desejam. Baumgartner lança mão da memória, mesmo fragmentada, para apreciar outras dimensões de seu mundo. Resgata os familiares perdidos como autores de vidas que são vistas para além dele mesmo, especialmente dos sentimentos primitivos que costumam dominar peito e cabeça dos componentes das famílias. Há acolhimento a cada um, em suas histórias imprecisas, distantes, mesmo que internalizadas. Quando o protagonista tenta uma nova relação amorosa com uma mulher e há um fenecimento prematuro ele segue adiante, não gasta inutilmente as energias que lhe restam em ressentimentos ou seus análogos. No final, está prestes a publicar um livro sobre a autonomia no viver. Trata de seus significados mutantes, dos mitos que envolvem o conceito, dos acidentes e da vinculação do indivíduo com o que se dá entre humanos, nunca autônomos e nunca senhores de si mesmos ou do seu entorno na extensão que pretendem, que fantasiam. É um parecer sobre a impossibilidade da autossuficiência, da mitificação da completude. Também uma quase advertência a respeito da impropriedade de delegação de responsabilidade sobre o que se é ao que está fora do sujeito. Uma assunção benfazeja da condição de ser humano em presença do fim, da morte, à qual também, até certo ponto, se pode resistir.  

Talvez “Baumgartner” seja o mensageiro da despedida amorosa do autor: bem-viver até onde isto pode ser verdadeiro, sem desprezo pelo que é bom e alcançável, mesmo que seja menos do que o sonhado. Sabendo que em algum momento tudo se transforma. Contudo, algo pode perdurar, libertado do “até quando”. Abandonem-se as falácias, na medida em que se pode percebê-las.

Título da Obra: BAUMGARTNER

Autor: PAUL AUSTER

Tradutor: JORIO DAUSTER

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

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