NIÉTOTCHKA NIEZVÂNOVA

O universo afetivo, com sentimentos, paixões, emoções e humor, é parte fundamental da existência humana. Compreende-lo e descreve-lo não são tarefas fáceis.  Em “Niétotchka Niezvânova” Fiódor Dostoiévski (Moscou, 1821 – São Petersburgo, 1881) fala dos afetos de uma menina, que dá nome ao romance, descritos por ela mesma quando já adulta. Com toques de folhetim o célebre autor russo toca ousadamente em questões difíceis como a importância dos vínculos afetivos na estruturação da personalidade, a sexualidade infantil e a homossexualidade. Publicado muito antes de Freud ter criado a psicanálise, o pequeno romance mostra a dimensão edípica da paixão de Niétotchaka por seu padrasto e depois, de modo mais francamente sensualizado, a atração entre ela e uma menina de sua idade, a princesa Kátia. Estes não eram assuntos de fácil digestão no século XIX e talvez ainda não o sejam. Também é notável a maneira como Dostoiévski expõe tipos de precariedade funcional em parte dos personagens adultos nas relações com a protagonista. Sua mãe, o padrasto e mais tarde o marido de sua protetora revelam-se áridos e mesquinhos, diminutos para o amor. Algo mais frequente do que é comum se admitir em qualquer tempo e sociedade. A figura do padrasto é bastante interessante por questões próprias que, embora interfiram e ganhem corpo na interação com Niétotchka, dizem muito sobre modos de funcionamento de algumas pessoas. Ele é um homem frustrado consigo mesmo, mal sucedido e que só consegue projetar no mundo a responsabilidade por seus fracassos, nunca toma-a para si. Deste modo fica-lhe mais fácil permitir-se (se não justificar) atitudes bastante pusilânimes e odiar à vontade. Dostoiévski é um observador de profundezas, mesmo quando folhetinesco. Não deixa à margem as conturbações da alma de cada um e o peso dos costumes numa sociedade moldada com dureza. Também não perde a delicadeza, a sensibilidade para dar o devido relevo a elementos de caráter que geralmente são ofuscados pelo que há de mais óbvio, gritante e circunstancial no comportamento dos indivíduos. Ele foi preso e condenado à morte quando estava escrevendo este livro (a pena depois foi modificada para trabalhos forçados na Sibéria) e sua intenção inicial era construir um romance extenso. Quando o período da punição terminou ele parece ter necessitado publica-lo rapidamente e concluiu precocemente o trabalho. Assim, o enredo termina de modo um tanto abrupto. O que talvez estimule o leitor a refletir sobre os possíveis desdobramentos da narrativa e a respeito das pontas soltas nas trajetórias na vida.

Título da Obra: NIÉTOTCHKA NIEZVÂNOVA

Autor: FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Tradutor: BORIS SCHNAIDERMAN

Editora: 34

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