SOBRE OS OSSOS DOS MORTOS

Em 2018 a polonesa Olga Tokarczuk (Sulechów, 1962) recebeu o Prêmio Nobel de literatura. Também ganhou outros prêmios importantes. Apesar de muito conhecida em seu país, era pouco lida no resto do mundo. “Sobre os Ossos dos Mortos” é um de seus livros de maior sucesso. Não é uma ficção comum. Tem feitio de livro de suspense, sem apelar para emoções fortes e nem guardar tão bem o que parece um segredo a ser revelado no final. Quem quiser pode descobri-lo antes, sem se adiantar na leitura. Em princípio, a obra defende a preservação ecológica, focada nos animais, em geral menos considerados enquanto seres com direito à vida e ao não sofrimento físico deliberado. Todavia, algo parece estar em cheque no texto, talvez a despeito da intenção da autora mas fomentado por ela, que é a animalidade humana. A racionalidade, precursora dos valores éticos, tem limites mais estreitos do que propagandeiam os crentes na hegemonia da Cultura. Há nesta crença uma espécie de “loucura” residente nos excessos sobre as capacidades dos que habitam o lado civilizado das fronteiras da vida e que a protagonista (Janina) encarna. As pressões instintivas possivelmente são muito grandes também nos seres humanos. Maiores do que o narcisismo comporta. Nestas condições a indignação que faz sentido para Janine torna-se muito vigorosa e ingênua e dá forma a uma narrativa entre alegoria e fábula, mesmo quando não pretende ser metafórica. Podemos identificar características e eventos afins em ideias, pessoas e nos motes de movimentos coletivos em prol da preservação ambiental e de direitos, humanos, não humanos e às vezes desumanos. Na trama estas pautas são estabelecidas com delicadeza. Janina é amável e desperta a simpatia do leitor.  De algum modo, este desejará salva-la das intempéries advindas de sua boa vontade. De modo nenhum se pode invalidar a necessidade de manifestar e discutir a indignação e suas motivações frende às barbáries, tão à vista de quem se dispuser a ver. Mas é preciso lembrar que é imprescindível alguma humildade nas expectativas quanto aos potenciais de transformação benéfica dos indivíduos, de alargar os horizontes de sua capacidade para pensar e especialmente de torna-los mais consistentes no que concerne aos valores morais. Além disso é preciso levar em conta que o conhecimento possível sobre o complexo mundo real tem sempre limitações significativas e que crenças, ideologias, militâncias e outras ações devem ser balizadas por isto. Vale observar que há também uma sapiência lírica nas concepções de Janina, mulher que distanciou-se do que há de mais prosaico no cotidiano. Ela proclama ideias muito curiosas, como por exemplo, a de que há certas vantagens em se ter uma ou mais doenças, pois a saúde determina um estado de fragilidade, de vulnerabilidade maior e, se bem aquilatado, indesejável. A autora registra a ocorrência verdade (nunca plena) mesmo no que parece absurdo. Os temas elencados e as discussões em torno deles, dentro e fora da obra, são atuais e bem-vindas.

 

Título da Obra: SOBRE OS OSSOS DOS MORTOS

Autora: OLGA TOKARCZUK

Tradutora: OLGA BAGINSKA-SHINZATO

Editora: TODAVIA

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