Panaït Istrati (Romênia, 1884-1935) retratou literariamente a (sua) aventura de viver. Estreou com “Kyra Kyralina”, um romance com jeito de “Mil e Uma Noites”. Um homem, Stavro, conta suas peregrinações para outro, com o qual teve frustrada uma tentativa de relação sexual. Parecendo inicialmente querer justificar o homoerotismo, o protagonista (ou Istrati) sabiamente não o faz, pois não haveria o que explicar quanto ao que se é, porque se é sem deliberações ou origens facilmente apreensíveis. Ao invés disso, ele fala dos afetos, de diversas naturezas. E assim, das contradições em que estão imersos os seres humanos nas turbulentas mesclas de amores e ódios, sofrimentos e gozos. Stavro, em andanças pelo mundo, tenta reencontrar a mãe e a irmã (Kyra) retiradas violentamente de seu convívio. Busca a ternura perdida. Engana-se com as seduções do mundo. Vive sob a força do fátuo desejo e toma parte em jogos de aprisionamento e libertação. Mas, o que parece essencial em seu relato é a celebração da intensidade com que se pode viver, equivalente a uma espécie de sensualidade.  Importa o amor, que se dá em múltiplos formatos. Ama-se também na amizade. A solidariedade e a generosidade dignificam, antes dos preceitos morais. A obra é um elogio à largueza do olhar, essencial para fazer bom uso da vida que se pode ter. A cadência é quase de “thriller”. Esse romance encantou primeiro o escritor Romain Rolland (França, 1866-1944), que o descobriu acidentalmente quando o até então desconhecido autor romeno fez uma tentativa de suicídio em Nice e no hospital encontraram em sua roupa uma carta endereçada a Rolland, o qual foi chamado em seguida e acabou por tornar-se próximo de Istrati. Depois de publicado na França foi rapidamente traduzido para o português e lançado aqui em 1924, nos ventos do modernismo. Fez sucesso. Cecília Meirelles (Rio, 1901-1964) e Sérgio Buarque de Holanda (São Paulo, 1902-1982) falaram dele. A Editora Carambaia relançou-o num bonito volume, para proporcionar prazer estético adicional com o sofisticado projeto gráfico.

Título da Obra: KYRA KYRALINA

Autor: PANAÏT ISTRATI

Tradução: ERIKA NOGUEIRA

Editora: CARAMBAIA

KYRALINA

2 respostas a “KYRA KYRALINA”

  1. Avatar de Cláudio Jorge
    Cláudio Jorge

    Vc tem ótimo gosto Dr.

    1. Avatar de Luis Justo

      Muito obrigado Claudio

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