OBRA E AUTOR

Pode-se conhecer o autor de uma obra através de sua leitura: contexto em que a produziu, que tipo de pessoa é ou foi, seus valores, etc.? Muitas respostas podem ser aventadas. Tem relevância o fato de que alguns escritores criaram livros cujos conteúdos e magnitude da qualidade intelectual e artística, além de alcances da sensibilidade, destoam de aspectos de sua personalidade, revelados em comportamentos de conhecimento público. Exemplos: Louis-Ferdinand Céline (França, 1894-1961) despertou grande admiração por “Viagem ao Fim da Noite”, onde não se encontram indícios de preceitos do nazismo, que ele apoiou; Thea Von Harbou (Alemanha, 1888-1954) escreveu o romance “Metrópolis”, celebrizado no filme homônimo dirigido por seu marido, o diretor Fritz Lang, em que parece haver um alerta contra a opressão totalitarista nascente e depois a escritora apoiou abertamente Adolf Hitler e o nazismo; Ezra Pound (Hailey, EUA, 1885 – Veneza, 1972) um dos maiores poetas modernistas do século XX foi adepto do fascismo de Mussolini; Lillian Hellman (EUA, 1905-1984) teria mentido sem nenhum pudor sobre atos de heroísmo que alegava seus, mas na verdade praticados por uma conhecida sua que confiou-lhe a própria história, entre outras ações pouco honrosas da escritora;  outros casos de descompasso entre aparente delicadeza de espírito contrastam com brutalidade desconcertante em cenários mais prosaicos. Os autores falariam sobre si mesmos, como tanto se apregoa? Defenderiam em seus textos valores realmente constituintes de sua moral e característicos de suas personalidades? Mudariam ao longo de suas vidas e tornando-se contraditórios por não desdizerem inequivocamente o que anteriormente disseram? Seriam artificiais ou embusteiros quando criam? E por aí seguem-se dúvidas perturbadoras. Talvez fosse mais confortável que seus leitores optassem por ignorar as histórias pessoais destes indivíduos, que não raro ocupam o lugar de mentores. Muitos leitores acabam por ter que esconder que gostam de certas obras. Por estranho que pareça, grandes escritores podem não ter escapado de misérias da alma, em dimensões para além dos livros que escrevem e que seriam passíveis de envergonhar os mais toscos seres humanos. O refinamento do ser não é fácil. Ao contrário, é quase um milagre. Bons escritores podem contribuir para fomentar o engrandecimento de quem os lê, sem que nunca tenham se apropriado dos tesouros que servem aos outros. Para alívio dos aficionados por literatura, também há aqueles que são grandes na obra e na vida. Harmônicos. Que fazem-nos acreditar na validade do esforço intelectual. Todavia, um verso de Fernando Pessoa canta dentro e fora de sua poesia, às vezes sério, sisudo e outras em ironia risonha, mas sempre profundo:

                            “O poeta é um fingidor

                             Finge tão completamente

                             Que parece fingir que é dor

                              A dor que deveras sente”

Abaixo, pintura de Georg Kersting (Alemanha, 1785-1847)

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2 comentários

  1. Muito bom, Justo! Podemos dizer que este raciocínio serve também para políticos que apregoam uma ideologia e seguem outra, geralmente, contrária.Beijundas saudosas,Malu

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