MENTE E CORPO

Podemos considerar a vida mental pelo menos em três planos: o primeiro diz respeito ao que o indivíduo sente/pensa quanto a si mesmo; o segundo refere-se ao que o indivíduo sente/pensa quanto ao mundo; e o terceiro se dá no modo como o indivíduo se comporta, como age. Ao contrário do que acreditou-se por muitos séculos a mente não está desvinculada do corpo biológico e sim faz parte dele. Este vínculo se dá especialmente através do órgão “viabilizador maior” da mente, o cérebro. Muitos ainda concebem a mente como autônoma em relação ao corpo, mas o avanço do conhecimento científico e, especialmente da neurociência, tornou muito difícil sustentar esta noção. O cérebro é talvez o órgão mais complexo do corpo humano e ainda insuficientemente conhecido. Estabelecer relações entre anatomia e fisiologia cerebrais e as maneiras como os indivíduos percebem o que é interior e exterior de si mesmos, quem são eles e quem são os outros e como comportam-se pode ser algo pouco intuitivo e bastante complicado. Por vezes é tentador buscar explicações sobrenaturais para aquilo que não compreendemos e que nos parece irredutível à natureza. Todavia, é preciso tomar cuidado. As convicções místico-religiosas ou outras crenças que dispensem a comprovação científica enquanto determinantes do universo mental, mesmo que respeitadas como formas de compreensão e expressão humanas, não podem ser confundidas com realidade objetiva. Esta exige esforços muito maiores do intelecto para ser compreendida e eles são geralmente insuficientes para dar conta da tarefa.  Os problemas reais são multifacetados e geralmente mutantes. A saúde e a doença mental estão inscritas na ordem natural de nosso corpo e do mundo em que vivemos. Estão incluídas na realidade. Em toda a sua materialidade e naquilo que dela deriva. Isto implica relações que são estabelecidas entre um indivíduo unificado em um “eu” e outros indivíduos, além de variados elementos do ambiente onde ele constituiu-se e constitui-se, em contínua evolução enquanto vive. Ainda mais além, implica inúmeros eventos que ocorrem no organismo e dos quais não é possível nos darmos conta diretamente, em especial o funcionamento de nosso cérebro. Esta ideia pode ser incômoda por apontar o quão pouco somos capazes de nos assenhorar de nós mesmos. Em todo caso, não deve ser ignorada ou camuflada, pois diz algo importante sobre a vida. A ilustração é foto de uma tela de Ernani Pavaneli – “Pensamentos”

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