AUTOCRACIA S.A.

O mundo está sempre em transformação e os modos de governança das nações fazem parte disto. Regimes autocráticos, incluindo o que conhecemos por ditaduras e que sempre existiram, estão ganhando novas feições. São instrumentalizados por recursos inimagináveis no passado, especialmente no que concerne às tecnologias do universo digital. Tais inovações facilitam a difusão de ideias convenientes, controle e transformação dos indivíduos e coletivos, moldando-os para cooperarem com os mandatários ou pretendentes a isto. Atualmente o conceito de autocracia não coincide mais com a noção de comando por um único chefe de governo/Estado ou mesmo um pequeno grupo, que faz o país governado funcionar conforme seus desejos e crenças (como Hitler, Mussolini e Stálin, para citar uma fase do século XX). Sobre as novas configurações e maquinarias das autocracias, assim como a interligação entre elas, a historiadora e jornalista ANNE APPLEBAUM (EUA, 1961) publicou em 2024 o livro AUTOCRACIAS S.A. Ela já ganhou um Prêmio Pulitzer e seus trabalhos são respeitados e admirados cada vez por mais leitores ao redor do mundo.

Applebaum diz que as autocracias são sistemas amplamente articulados em que grupos constituídos por muitos elementos servem-se de “estruturas financeiras cleptocráticas, um complexo de serviços de segurança -militares, paramilitares, policiais- e especialistas em tecnologia, que fornecem vigilância, propaganda e desinformação.” O fato de que estas redes que passam a comandar um país não estão mais restritas ao interior deste país, mas conectam-se com outras autocracias e, eventualmente, com democracias também. Auxiliam-se mutuamente quando necessário e isto é método relativamente recente quanto à magnitude. A cooperação internacional entre autocratas é muito relevante para seu avanço e empoderamento. Empresas corruptas de um país fazem negócios com governos ou empresas também corruptas de outros países, entre as muitas modalidades de cooperação entre aqueles que têm por objetivo enriquecimento e poder ilimitados. Daí o título “Autocracia S.A.”. Não há relação verdadeira com ideologias que denominamos de esquerda ou de direita, embora para propaganda as elites dominantes possam se valer destes rótulos e manipular as populações. Talvez a fragilidade das bases teóricas que dão sustentação a tais ideologias nunca tenha estado tão exposta quanto agora.

A Rússia de Putin, a Venezuela de Chaves e Maduro, a China de Xi Jinping, o Irã dos aiatolás, assim como presentemente a Coreia do Norte, Nicarágua, Síria, Angola, Zimbabue, Cuba, Bielorrússia e Sudão são mencionados pela autora. Ela conta como Putin tornou-se o presidente poderoso que é hoje e sobre o percurso que traçou desde a época em que dirigia a KGB até a invasão da Ucrânia. Aponta para as intenções neoimperialistas, neocolonialistas.  Também fala da evolução do bolivarianismo na Venezuela com a depredação do País e a apropriação da riqueza por parte das cúpulas no governo. Aborda o governo de Xi Jinping (talvez uma exceção quanto à concentração real de poder num único homem) e, menos extensamente, o que aconteceu e acontece nas outras nações citadas. Ela não deixa de tocar em Trump e algumas minorias norte-americanas, incluindo-os, de modo mais circunscrito, neste temível balaio. Mesmo considerando que podem existir vieses em cada interpretador dos fatos, Applebaum usa com propriedade dados objetivos ao construir o texto, o que torna bastante crível o que expõe. Não é nada banal.

De modo geral, os autocratas trabalham constantemente para minar os autênticos princípios democráticos, ainda que em alguma fase de sua trajetória discursem em defesa da democracia e justifiquem diversos atos repressivos em nome de sua preservação. Putin foi um exemplo. Nas autocracias não há separação real entre poderes, mesmo que se faça parecer o contrário. Sistemas de pesos e contrapesos na governança são anulados. A instalação dos grupos no poder e o estabelecimento de mecanismos garantidores da permanência destes sistemas são processos gradativos, na atualidade dificilmente são determinados por golpes (embora em alguns lugares, como Mianmar, isto de fato tenha ocorrido). Causam espanto os volumes de dinheiro e de riquezas materiais de diversas modalidades que são subtraídos ao que é do povo, assim como outras consequências destes regimes. Impressiona a eficiência cada vez maior do jugo disfarçado daqueles que “pagam o preço”. A desesperança e niilismo quanto à validade de ações em prol de mudanças infiltram-se entre os que percebem o que se passa.   

Ao mencionar os métodos de propaganda nas autocracias do século XXI a autora lembra que certas estratégias foram abandonadas ou perderam a preponderância. Agora as populações são controladas através de sofisticadas tecnologias, que coíbem tentativas de engendrar manifestações de protesto ou quaisquer tipos de contestação. A desmoralização de oponentes é muito comum e, se isto não for suficiente, a manipulação de sistemas jurídicos transforma-os em infratores e neutraliza-os. Algumas ideias passaram a ser divulgadas intensamente, como: “Nosso Estado pode ser corrupto, mas todo o mundo é corrupto.” “Você pode não gostar de nosso líder, mas os outros são piores.” O uso de religiões e da fé, de questões sobre apoio ou repressão a homossexuais e pessoas transgênero, assim como sobre o lugar das mulheres nas sociedades é algo frequente. São temas potencialmente mobilizadores e, se bem usados, podem angariar apoio de grande número de pessoas. De modo semelhante urdem-se narrativas que criam oposições entre partes das populações ou relativas a outros povos e países, sempre com um “nós contra eles” e vice-versa, forjando inimigos que facilitam a fidelização a dirigentes. “Direitos Humanos” passa a ser termo de uso corrompido, tais direitos são ignorados quando se trata autenticamente deles. A mentira funciona como uma poderosa varinha de condão. Fatores que contribuem para a formação de redes de apoio popular entre os que passam a crer e defender seus líderes de modo cego, fanatizado.

O livro é escrito em linguagem jornalística, agradável de ler.

Título da Obra: AUTOCRACIA S.A.

Autora: ANNE APPLEBAUM

Tradutora: ALESSANDRA BONRRUQUER

Editora: RECORD

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