Acontece de os sentimentos identificados como amor e desejo sexual serem convertidos em malquerer ou mesmo nua violência. As relações entre enamorados costumam ser complexas, tanto com respeito ao que as desencadeia como quanto à evolução e desfechos. Muitas vezes fica a interrogação de difícil resposta sobre o que prepondera no balanço entre afetos e atos legitimamente amorosos e as hostilidades. O conto “VENHA VER O PÔR DO SOL” de LYGIA FAGUNDES TELLES (São Paulo, 1923-2022) aponta para isto, através de um breve flagrante.
Acompanhamos um encontro entre os amantes Raquel e Ricardo num momento de ruptura do vínculo. O afastamento deveria ocorrer pelo receio dela de ser descoberta na infidelidade conjugal (já houvera outras) e perder os benefícios trazidos pelo muito dinheiro de seu marido. Ricardo determinara o local, uma área erma da cidade onde há um cemitério antigo, já abandonado. No diálogo dos dois durante o trajeto cria-se um clima de tensão e mistério quanto ao que poderá sobrevir. Raquel é sarcástica, desqualificadora, não se preocupa em disfarçar o uso inescrupuloso que faz dos homens com quem se relaciona, embora fale até de amor. Ele mantém-se reservado no que diz, demonstra desejo, mas deixa transparecer alguma dissimulação. Convida-a para verem juntos o pôr do sol no cemitério onde estariam sepultados membros da família dele. O final não é óbvio como pode parecer ao longo da leitura.
Por um lado, o auto centramento, o egoísmo, a falta de respeito para com o outro e as diferentes formas de maus tratos podem levar a consequências devastadoras para um ou para ambos os indivíduos num relacionamento. Isto pode dar-se de maneiras mais ou menos previsíveis, mas também há o risco de eventos extremados e menos passíveis de cálculo. Descaso por um lado e ressentimento por outro costumam fazer funcionar o que há de pior nas pessoas quando interagem. Dificilmente o que se dispõem a fazer ou o que já fizeram é visto por elas mesmas como excessivo ou injusto. A falta de reparação do mal causado ou reconhecer merecimento de punição são compatíveis com o apagamento da virtude. Motivos causais dificilmente são justificativas razoáveis.
Lygia Fagundes Telles é, como de hábito, sutil, cheia de refinamento para atravessar agilmente o caminho que vai das aparências ou superficialidades para o que há de mais profundo e sombrio em se seus personagens. E eles são tão críveis quanto gente com quem é possível se deparar cotidianamente.
Título da Obra: VENHA VER O PÔR DO SOL (parte do volume “ANTES DO BAILE VERDE”
Autora: LYGIA FAGUNDES TELLES
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Na ilustração: foto de obra de PABLO PICASSO (Espanha, 1881 – França, 1973)
