MEIA-NOITE EM PONTO EM XANGAI

A arrogância pode intimidar, assustar, indignar, submeter, mas também seduzir e ser entendida como decorrente da legítima magnitude da importância do arrogante. Este, por razões variadas e nem sempre passíveis de compreensão clara, constrói e impinge uma imagem de superioridade, proclama sua importância para os demais, que deve ser igual à que dá a si mesmo. Existe em graus variáveis e, para alguns, promove um enorme distanciamento da realidade consensual. Dificilmente contam com as consequências negativas de sua atitude. Pode ser deletéria para muitos.

“Meia-noite em Ponto em Xangai” é um conto de Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 1923-2022), parte de “Antes do Baile Verde” e fala da arrogância manifestada por uma diva do canto. Aparecem seu empresário e um chinês que lhe presta serviços de camareiro privado no local onde está hospedada. Cumprem suas ordens. Ao mencionar novas flores que chegaram para homenageá-la, ela ordena que sejam postas no corredor, como outras que já tinham vindo. O empresário retira-se após os elogios de praxe e acertos quanto à próxima apresentação. Aparentemente, para a cantora, não resta muito mais a considerar no mundo, além dela mesma, devendo ser atendida em seus desejos. Qualquer manifestação de reconhecimento é descartável, insuficiente para sua grandeza, sua glória. As demais pessoas presentes na cena representam para ela multidão de todos os que porventura a cercarem, meros instrumentos da realização de suas vontades. É interessante a menção, ao conversar com o agente, à diversidade, servidores de outra cultura, tão distinta, como mais uma razão para desdém.

Todavia, o criado de quarto chinês, desprezado em sua pouquíssima significância, como caberia qualquer outro humano ou não humano, torna-se ameaçador através do silêncio, fazendo-se invisível e já incontrolável, quando ela o chama, presume que ele está próximo e, aparentemente ouvindo-a, ele não responde e não se mostra. Mais do que em qualquer momento, é uma presença. Um desconforto amorfo toma conta da cena, vago e ao mesmo tempo pesado. A autora instaura um clima próximo ao terror, aos seus prenúncios, sutilmente, também quase em silêncio. A ausência de uma sequência explicita de eventos contados para completar a estória, fazendo-a mais palpável imaginariamente, cumpre a função de “descrever” a ameaça.

Um exemplo de como um conto pode ser estruturado para justificar sua existência enquanto gênero literário.

Na ilustração: foto parcial de obra de Suzuki Kiitsu (Japão, 1796-1858)

Título da Obra: MEIA-NOITE EM PONTO EM XANGAI (em “ANTES DO BAILE VERDE”

Editora: COMPANHIA DAS LETRAS  

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