O poeta Manoel de Barros (Cuiabá, 1916 – Campo Grande, 2014) teve uma vida longa dedicada a fecundar-se com mundo e a transformar isto em beleza na criação literária. Enxergou a intimidade da natureza de que ele fez parte. Deu olhos às palavras ou elas os deram a ele, difícil decidir. Mas nem é preciso. Assim moldou lindas esculturas da língua portuguesa.
“Memórias Inventadas” é um conjunto de três grupos de seus escritos em prosa. Uma forma talvez híbrida ou ao menos nascida da poesia, através da qual e para qual o autor viveu. Este livro traz os subtítulos “A Infância”, “Segunda Infância” e “Terceira Infância”. Eles têm a função de apontar para as origens de sua poesia e para uma vida que nunca deixou de ser feita de começos, procuras e descobertas; testemunham a renúncia a se assenhorar de saberes férreos e mostram a distância da soberba.
Há doses de biografia que não carecem ser distinguidas das ditas invenções, pois existem para coincidirem ou confundirem-se. Cada trecho é pleno da mais viva realidade que envolvia Manoel de Barros e que ele compartilha com seu leitor. As palavras são as protagonistas, sem simular divórcios do universo a que pertencem. Foram trabalhadas para brilhar em seus papeis, sendo precisas e simples. O autor usou as “escovas” que achou apropriadas para limpá-las de tudo o que poderia ser adereço inútil no cumprimento de sua missão. Assim, elas dizem o que importou ao autor, fazem entrever os processos que regeram sua articulação, que equivale também à criação do poeta que ele foi. Criação e criatura são um amálgama sem paradoxos.
Há um imenso universo de elementos que estão muito próximos do chão, da terra que habitou o poeta, suas árvores, rios, animais e gente. E nada é banal. Se algo aparentar banalidade deve haver algum engano na recepção destas memórias. O livro é um ensinamento sobre a comunhão dos seres. Todos eles são vivos nas palavras que os dizem. Também é um relato de formação de um homem, de seus anseios e dos contrários deles. Há peças essenciais da história de Manoel de Barros. Vão das cores que pintaram os cenários em que viveu aos textos do padre António Vieira, que se transformaram em recompensa para o “pecado solitário”, quando deveriam ser punição. Pode-se ver a pulsação do desejo de conhecer, de entender o que acontecia dentro e fora dele e a rendição à modéstia do que é possível alcançar, que é uma preciosa forma de conhecimento. Seu modo de pensar fica longe das metafísicas porque nele o que é físico, o que é realidade próxima, é demasiado forte e prescinde de explicações que venham de paradeiros etéreos.
Uma oportunidade de declamar a leitura, mesmo em silencia. De reconhecer uma das maneiras pelas quais o mundo pode ser amplo. E de prestar homenagem às palavras bem-ditas.
Título da Obra: MEMÓRIAS INVENTADAS
Autor: MANOEL DE BARROS
Editora: ALFAGUARA
