Biografias têm sempre uma cota significativa de ficção. Sejam autobiografias ou aquelas escritas por outros. Fatos podem ser elencados para dizer algo sobre alguém, podem ser documentados e pormenorizados, mas o que faz a ligação entre eles tem a inevitável marca da imaginação do autor no momento da escrita, da suposição ao resgatar experiências que se perderam no tempo e/ou foram vividas por outros. Falar sobre gente costuma implicar uma dimensão íntima. A intimidade transformada em narrativa não pode prescindir da inventividade. História e estória dificilmente admitem separação em duas categorias distintas quando se tem a realidade como referência. Assim, romances de tema biográfico não devem ser diminuídos quando comparados a biografias convencionais.
O irlandês Colm Tóibín (Enniscorthy, 1955) publicou em 2021 “O Mágico”, um romance biográfico sobre Thomas Mann (Alemanha, 1875 – Suíça, 1955). Nele Tóibín conta a vida do protagonista por vertentes privadas. É muito crível esta viagem que se inicia na infância do biografado e termina nas vésperas de sua morte. Fatos importantes são registrados e funcionam como balizas, mas o que é audacioso e vivaz acontece na vida interior do escritor alemão e no âmbito de suas relações familiares. Nada disso poderia ser descrito com objetividade e nem garantido por documentação. Não se sente falta disto. Surge da ficção de Tóibín um homem verdadeiro. Talvez o mesmo que, ainda que parcialmente e por desvãos, está presente conjunto da obra de Thomas Mann.
Thomas Mann foi principalmente um romancista (embora tenha escrito novelas, contos e ensaios), abrindo seu brilhante percurso com “Os Buddenbrook” (1901) e fechando-o com o romance “As Confissões do Impostor Felix Krull” e a novela “O Cisne Negro” (1954). Seu livro mais famoso é “A Montanha Mágica”. Em 1929 ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (numa das vezes em que o mérito da obra do premiado determinou a premiação).
Ele teve uma vida marcada pelas turbulências das duas grandes guerras do século XX, pelo nazismo que o obrigou a se tornar um exilado para sempre, por tragédias na família de origem e relações conturbadas com seus seis filhos, também pela bissexualidade que não conseguiu viver com liberdade. Talvez seu casamento com Katharina (Katia) Pringshein (1883-1980) somado à determinação e talento como escritor tenham sido os pilares de estabilidade em sua vida.
Vale a pena conhecer um pouco sobre a vida de Mann e ler o que ele escreveu.
Colm Tóibín, como de outras vezes, brinda seus leitores com um livro saboroso.

Título da Obra: O MÁGICO
Autor: COLM TÓIBÍN
Tradutores: CHRISTIAN SCHWARTZ e LILIANA NEGRELLO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

2 respostas a “O MÁGICO”

  1. Avatar de tolstoiuolcombr
    tolstoiuolcombr

    Isso mesmo, Luís, o texto do Tóibín é saboroso. O Testamento de Maria é para mim, uma beleza de livro, meu preferido, embora não tenha lido tantos outros títulos dele. Beijos.

    1. Avatar de Luis Justo

      Beijos

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