Ivan Turguêniev (Rússia, 1818 – França, 1883) foi um dos grandes escritores do século XIX. Através de seus romances, novelas e contos fez belas descrições da sociedade russa de seu tempo, além de tratar de assuntos que são universais e atemporais. Também escreveu poesia e foi tradutor. Seu romance mais conhecido é “Pais e Filhos”, mas a obra é vasta e há muito o que se explorar nela.
“Ássia” é uma novela ou um conto grande. Pode ser considerado deste modo devido a sua pouca extensão e o reduzido número de personagens e contextos nos quais atuam. Os temas centrais são o apaixonamento e a busca do amor, emoldurados pelos valores do universo dos personagens. Um jovem russo, referido somente pela inicial N., está em viagem pela Europa e numa cidade às margens do rio Reno encontra um casal de irmãos também russos, Guáguin e Ássia. Num rápido entrosamento com eles fica vivamente interessado pela moça. Ela tem dezessete anos e dá sinais de ter uma personalidade complexa, que desafia a capacidade de compreensão do protagonista. A relação com ela, a mobilização emocional e a impossibilidade de transformar fantasias em realidade servem para que o autor aborde as dificuldades de transformar o apaixonamento (neste caso, apesar de haver intensidade, era ainda incipiente) em amor, como um afeto mais amadurecido e estável. O amor do qual tratava o romantismo (e há aqui características deste movimento estético-cultural, embora tenha algo de realismo) contemplava mais a idealização e expectativas do que realizações concretas.
Amar pode ter múltiplos sentidos. Seguramente suas manifestações são diferentes conforme o tempo e a cultura onde se dê, assim como há muita diversidade relativa aos indivíduos num mesmo lugar e momento. As relações amorosas que implicam namoro, casamento e equivalentes inserem-se nessas dissemelhanças. Há os que creem que amor autêntico é um só. Esta parece ser uma ideia enganosa, considerando tanto o que cada um quer dizer com isto quanto o que se passa na singularidade afetiva de cada pessoa. Turguêniev conta a estória do surgimento quase acidental de uma possibilidade de namoro que abarcava a ideia de casamento. O que fica sugerido quanto à maneira de buscar o amor e o que o protagonista assume como herança do encontro com a jovem sugere algo além de um significado característico da vivência amorosa no tempo em que se passa a estória. Ele soube muito pouco sobre Ássia. Ela era filha ilegítima de um aristocrata com a camareira de sua falecida esposa e constrangia-se quanto a este fato. Era instável, talvez pela insegurança devido a sua origem, mas também como é comum numa jovem de 17 anos. As dificuldades inerentes à desigualdade nas posições sociais dos personagens para que se cassassem e fossem aceitos pela classe do homem são postas em pauta e ganham especial relevo. Aquele era um momento de difícil mobilidade social. Os russos especialmente levavam muito a sério as regras que regiam a união pelo casamento e a escolha de pares.
Nada houve entre N. e Ássia que justificasse pela via de uma relação razoavelmente robusta uma marca duradoura quanto ao sentimento de perda de alguém importante ou frustrações pelo que não aconteceu. No entanto N. parece seguir anos buscando um amor perdido e lembrando-se do pouco que experimentara como pretendente a uma ligação maior. Talvez nisto resida o cerne da novela, no amor como uma ideia distante das concretizações possíveis e uma necessidade impossível de satisfazer suficientemente. A pessoa amada parece representar um mítico objeto perdido, fundamental, mas indefinido. No trabalho ficcional o autor deixa transparecer elementos autobiográficos. Num plano profundamente íntimo de sua biografia, onde estava alicerçada sua subjetividade. O modo de narrar é, como usualmente em Ivan Turguêniev, um trabalho de mestre.
Título da Obra: ÁSSIA
Autor: IVAN TURGUÊNIEV
Tradutora: FÁTIMA BIANCHI
Editora: 34
