Toda a vida é uma viagem. Demarcam-se melhor partida e chegada e parece mais complicado construir um retrato do percurso entre os dois pontos. Importam, para isto, as dificuldades de precisar memórias, organizá-las e montar enredos estáveis e com sentidos razoáveis. E vale mencionar que lidar com o que é verdadeiro e o que não é representa um dos grandes desafios para os interessados em compreender o que foram e são ou o que fizeram. Não há segurança quanto à solidez das histórias de cada um. Elas compõem o infinito conjunto do que se narra sobre a humanidade.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal, 1919-2004) escreveu um lindo conto, com o título “A Viagem”, que admite múltiplas interpretações, incluindo essas questões. Pode-se, por exemplo, pensar na impermanência de tudo o que se vive. E o que não permanece costuma passar muito velozmente, tornando fugaz sua fruição e difícil sua captura pela memória. Impacta a ideia de que todo o vivido é irrecuperável. As tentativas de prosseguir por caminhos previamente planejados, corrigindo desvios e retomando rotas, costumam mostrar-se vãs. Os enganos sucedem-se e repetidamente. No entanto segue-se adiante, mesmo quando não se sabe para onde se vai. É o que resta.
Nesta estória curta, um casal está em viagem rumo a um lugar idílico. Primeiro registram o rápido desaparecimento das paisagens que preenchem as janelas de seu automóvel. Depois perdem-se pelo caminho e nunca retornam ao caminho por onde seguiam para alcançar o destino imaginado inicialmente. A forma de falar disto no conto é muito bonita. O bom uso da língua portuguesa soma-se à sensibilidade da autora para falar daquilo que é essencial. Como deve ser num conto. Como é característico no que Sophia de Mello Breyner Andresem produziu, em prosa e poesia.
A beleza do mundo exige esforço para ser notada e valorizada. O belo muda de lugar. Aquilo que serve de alimento para a sustentação do ser num período da vida pode não funcionar do mesmo modo em outros períodos. Frutos bonitos e cheios de sabor são perecíveis e nem sempre reencontráveis. E o ponto de chegada, obrigatória chegada, é o desconhecido. Inevitável.
“A Viagem” faz parte do livro “Contos Exemplares” em que a escritora busca transmitir sua compreensão sobre o que julga importante na vida. Sem especificidades contextuais, ao menos nesta viagem.
Título da Obra: A VIAGEM
Autora: SOPHIA DE MELLO BRYNER ANDRESEN
Editora: ASSÍRIO & ALVIM (Portugal)
Abaixo foto de obra de Alex Katz (EUA, 1927); Museu Coleção Berardo, Lisboa
