É A ALES

Jon Fosse (Noruega, 1959) foi o vencedor do Prêmio Nobel em 2023, cuja obra é pouco conhecida nos países lusófonos, embora alguns de seus livros já tenham sido traduzidos. Talvez, mesmo no resto do mundo ele tenha sido mais notado como dramaturgo. “É A Ales” de 2003 é um de seus livros vertidos para o português.

Difícil de classificar quanto ao estilo. Romance, novela ou conto? É um texto formalmente original. O que diz parece ser repetido o tempo todo, do início ao fim. Todavia, há algumas pequenas variações no discurso que fazem desviar o pensamento do leitor, libertando-o da trajetória circular. Tudo deriva da perda radical de alguém e de uma aparente espera. A perda implica mistério que se amplia muito quando não se sabe como aconteceu. A espera carrega ainda mais incógnitas. Tem peso a questão sobre o que se pode esperar de alguém desaparecido. Neste livro uma esposa reflete sobre o marido que não retornou depois de sair para um passeio de barco no fiorde em frente à casa onde viviam. O clima era desfavorável para passear, mas não o impediu de prosseguir em direção ao mar. O barco reaparece, mas não Asle, o navegante.

Desenhando em sua mente rascunhos de fatos e perfis de pessoas, Signe, a esposa, resiste a avançar no tempo. O leitor assiste aos pensamentos dela, que transitam pela escuridão do que ela definitivamente não sabe, por retalhos de memória ou pelas sombras do que supõe. Aquilo pelo que parece esperar confunde-se com a ideia da volta do homem que possivelmente amou enquanto conviveram e de algum entendimento do que foi um para o outro. É o que lhe sobrou e tornou-se referência para tentar compreender o que teve ou tem e tolerar a obscuridade do que lhe falta agora e presumivelmente tenha faltado sempre. Esperar cria um papel para Signe através do qual ela é capaz para conjecturar sobre a realidade, constituir o espaço de sua história, que se sustenta em impressões vagas sobre o amado perdido e suas origens, sua identidade. Esperar é não se perder além do suportável. A casa onde vivia com ele e continua vivendo sozinha é antiga. É a propriedade de várias gerações de ancestrais dele, paragem fundamental, o lugar do passado, onde se pode esperar. Arcabouço para a construção de um enredo que balbucia alguma coisa sobre quem foi ou é alguém. Ela ali permanece. Trafega pelos fragmentos que sua imaginação resgata e cria usando o pouco que sabe sobre o homem com quem pretendia manter-se isolada do resto do mundo. Assim, alimenta a própria vida. Só enxerga no escuro da paisagem em que flutua. Nesse breu navega sem chegar a porto nenhum. Circula em torno dos restos de seu naufrágio, na incerteza do que isso realmente foi e continua sendo.

O pensamento acorrentado à perda alude também ao que não foi alcançado, ao que está além das águas singradas. Conhecer o outro, unir-se seguramente a ele geralmente mostra-se uma falsa conquista, um além, uma miragem. Mais verdadeiramente revela-se um desejo/ farol para guiar até o porvir que se renova infinitamente como tal. A solidão faz as vezes de protagonista maior, ponto de partida e de chegada, pois a relação com o outro tende a ser fátua, quando não da ordem do fantasmagórico. Para além da solidão há somente imagens fugidias de gente movimentando-se num cenário vago, como hologramas. Nem ganham as vestes de esperanças. Em sua cabeça Signe produz um teatro de proscênio estreito, atrás do qual há um pano de fundo pintado grotescamente. Tudo o que seus personagens podem dizer está contido no monólogo dela, que tão pouco tem para afirmar.

Título da Obra: É A ALES

Autor: JON FOSSE

Tradutor: GUILHERME DA SILVA BRAGA

Editora: COMPANHIA DAS LETRA

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