DOENÇAS MÉDICAS E DOENÇAS SOCIAIS

Os conceitos de doença vêm sofrendo modificações ao longo do tempo. Não são compreendidos da mesma forma por médicos e não médicos e são tomados por condições diversas em culturas distintas. Sua percepção e manejo modifica-se com o avanço do conhecimento, tanto científico quanto geral. Doenças dificilmente podem ser atribuídas a causas únicas nem têm evoluções uniformes ou desfechos totalmente previsíveis. O que se tornou patente é que os fatores envolvidos em sua gênese, evolução e desfechos são geralmente múltiplos, interativos, e determinantes de complexidade. Para doenças diferentes estes fatores variarão em muitos aspectos. Os contextos em que elas ocorrem também determinarão heterogeneidade. Frequentemente vemos pessoas afirmando que muitas doenças são exclusivamente determinadas por fatores sociais. É preciso tomar muito cuidado com este tipo de concepção. Aspectos sociais geralmente têm peso. Podem ser muito significativos para reconhecimento, prevenção e tratamento de doenças médicas. Todavia, doenças médicas não podem ser reduzidas a seus componentes sociais. São muito mais do que isto. Não prescindem da dimensão biológica, que em grande parte da vezes tem precedência sobre outros elementos. A ciência evoluiu tanto nas últimas décadas que acabou por eliminar concepções de embasamento precário e que funcionavam de modo enganoso. Adicionalmente, não podemos esquecer do funcionamento psicológico dos indivíduos. Todavia, podemos admitir que sejam usados conceitos abarcados pelas denominações de doenças sociais. Neste caso, não estaremos falando especificamente de doenças médicas. Talvez sim nos referindo a tipos distintos de ruptura no estado de bem estar. O conceito (também passível de variações semânticas e transformações) tem outro lugar, em relação a doenças médicas. Tomemos como exemplos, modos de comportamento sistemático de indivíduos, grupos ou sociedades que, direta ou indiretamente, causem danos reconhecíveis objetivamente para pessoas ou para o bom funcionamento da coletividade. A política tem grande relevo para o combate a doenças médicas e para a promoção de bem estar. Numa de suas definições de maior calibre o ato político de boa estirpe implicaria viabilizar negociações inter-humanas para defesa de interesses específicos ou gerais. As sociedades caracterizadas por maior equanimidade de participação de seus indivíduos nas decisões que afetam a todos, como as democracias, parecem tender a alcançar maior sucesso na promoção do bem estar. Há mais oportunidades de redução do que é danoso nos mecanismos do funcionamento social. A participação deve ter amplitude suficiente para não se restringir ao comportamento de adesão e defesa acrítica de líderes ou ideologias. Eles não devem ser transformados em totens. As permanências devem ser, preferivelmente, escassas. A mitificação é indesejável. É preciso pôr constantemente em cheque os valores morais e as crenças, buscar a Justiça em sentido amplo, manter o esforço pela aquisição de conhecimento (não prescindir da dolorosa procura pela verdade) e rejeitar sempre o dogma e o fanatismo. As evidências impostas pela realidade merecem muito respeito. É o mínimo. Vale dizer que é salutar que os conceitos de doenças médicas e de doenças sociais não sejam usados como coincidentes. Abaixo, “The Watchers”, escultura de Lynn Chadwick, em exposição no Balboa Park, San Diego, EUA

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