CLARICE,

Mesmo para quem não é amante de biografias, esta encanta. “Clarice,” de Benjamin Moser, conta a vida da mulher e de sua magnífica obra literária. Clarice Lispector (Chechelnyk, Ucrânia, 1920-Rio de Janeiro, 1977) nunca foi uma pessoa comum. Tampouco foi uma escritora como outras. Olhou para a vida mirando o mistério nela contido. E poucos conseguem suportar tal mirada. E, mais difícil ainda é descrever o que se vê e o que não se vê, mas lá está. Clarice sempre atentou para a impermanência e, frequentemente, inconsistência nos significados dos atos e na (in)capacidade de compreensão dos seres humanos sobre si mesmos, assim como sobre o universo em que estão inseridos. Nunca se furtou ao espanto, ao desconcerto, ao estranhamento de si mesma. Veiculou o novo. Voluntária e involuntariamente.  Acolheu o imprevisível eterno, que se impõe à vontade e ao planejamento do viver. Foi sempre em frente. No embevecimento e no terror. Emitiu belíssimos dizeres sobre seus caminhos. O cotidiano, de aparência banal, foi muitas vezes a porta de entrada para tocar a imensa complexidade de ser mulher, de ser humana.  Espantou-se incessantemente com a dor e o gozo da consciência. Moser mostra muita sensibilidade ao analisar a produção da escritora. Torna visível a consonância do que ela escreveu com sua história pessoal, aproximando o leitor do fascínio dela pelos enigmas da vida. O autor é íntimo de Clarice. Capta muito do que ela foi, e do que é sua obra. Esta, destinada a seguir se desenvolvendo através de seus leitores. Aborda a comunhão de sua perturbadora inteligência com o pensamento de Spinoza, talvez anterior ao momento em que ela passou a se debruçar sobre a filosofia dele para amalgama-la ao que escreveu. Moser acentua um aspecto fundamental na visão de mundo de Clarice: o poder de um  Deus (spinoziano), que manifesta S(s)ua suficiênica naquilo que É porque Existe. E só por isso. Uma ontologia nada mística, por mais que sob alguns ângulos possa parecer. Com a grande beleza, assombro e eventual angústia com que isso impacta as mentes capazes de se inquietarem.
Título da Obra: CLARICE,
Autor: BENJAMIN MOSER
Tradução: JOSÉ GERALDO COUTO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s