MEMÓRIAS DE UM CASAMENTO

A classe alta americana compõe-se basicamente por dois tipos de pessoas: aquelas que enriqueceram muito, devido ao próprio trabalho, em diversas áreas de atividade, que são as do “dinheiro novo”, e as que prezam, antes de tudo sua origem antiga na América, e a participação na independência em relação à Inglaterra, os primeiros responsáveis pela existência dos Estados Unidos, que, geralmente ricos por herança, são os do “dinheiro velho”. E, neste grupo manteve-se sempre a fantasia/referência de pertencimento ao “sangue azul” europeu, do qual estavam distantes quando imigraram para o Novo Mundo. O escritor nascido na Polônia e naturalizado americano, Louis Begley, quase que se especializou em retratar a classe alta. Descreve, com especial maestria, os complicados esforços, de parte destas pessoas, para afirmar identidades consistentes enquanto um tipo de “nobreza”, e suas relações com o universo norte americano mais abrangente, que prioriza a vitória do esforço, determinação e trabalho. Memórias de um Casamento fala destas questões. Trata-se da estória de Lucy De Bourgh, um protótipo da tradicional alta sociedade americana, e de seu casamento com Thomas Snow, um homem que, filho de um dono de oficina de automóveis e de uma contadora, da classe média menos abastada, torna-se um milionário, através do desenvolvimento de suas capacidades, estudando em Harvard, do esforço incansável para ascender socialmente, e do senso de oportunidade. Ao observador externo, representado pelo narrador, a união parece uma ousadia de Lucy, um ato de rebeldia em relação a uma paisagem moral um tanto desacreditada, e uma espécie de afirmação de autenticidade através do sentimento, que se sobrepõe à conveniência e à preservação da imagem. Isto se revela um engano, no resgate da história de ambos e de sua relação, empreendido por esse narrador, que havia sido amigo deles em tempos passados. Como bom romance que é, este livro tem diversos planos de leitura, que eventualmente se fundem. Begley, para além dos aspectos mais singulares destes personagens, psicologicamente bem construídos, fala sobre a inexorabilidade dos determinantes de classe nesta camada da sociedade estadunidense. Lucy mostra-se um ícone da arrogância, rigidez, preconceito, presunção, um certo tipo de decadência, quase cultivada e, na soma de tudo, um estandarte do patético, nisto realmente autêntico, apesar da embalagem luxuosa, que se desenha na afirmação espúria de uma condição impossível, e assim um arremedo. Em contraponto, Thomas é o americano ideal, uma possibilidade acessível à todos. Desde sua precariedade original até sua transformação em símbolo de glória. O texto, além de rico e vivo, é elegante em sua simplicidade formal, o que propicia muito prazer na leitura.    
Título da Obra: MEMÓRIAS DE UM CASAMENTO
Autor: LOUIS BEGLEY
Tradutor: RUBENS FIGUEIREDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
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