FERNANDO PESSOA – ULTIMATUM

O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), vivo, sempre, em cada um de seus heterônimos, parece-o ainda mais neste belíssimo poema de 1917. É como se, através de Álvaro de Campos, estivesse se dirigindo a nós, brasileiros. Agora.

ULTIMATUM
1917
Mandato de despejo aos mandarins do mundo
 Fora tu,
 reles
 esnobe
 plebeu
 E fora tu, imperialista das sucatas
 Charlatão da sinceridade
 e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
 Ultimatum a todos eles
 E a todos que sejam como eles
 Todos!
 Monte de tijolos com pretensões a casa
 Inútil luxo, megalomania triunfante
 E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
 Que nem te queria descobrir
   
 Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
 Que confundis tudo
 Vós, anarquistas deveras sinceros
 Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
 Para quererem deixar de trabalhar
 Sim, todos vós que representais o mundo
 Homens altos
 Passai por baixo do meu desprezo
 Passai aristocratas de tanga de ouro
 Passai Frouxos
 Passai radicais do pouco
 Quem acredita neles?
 Mandem tudo isso para casa
 Descascar batatas simbólicas
 Fechem-me tudo isso a chave
 E deitem a chave fora
 Sufoco de ter só isso a minha volta
 Deixem-me respirar
 Abram todas as janelas
 Abram mais janelas
 Do que todas as janelas que há no mundo
 Nenhuma ideia grande
 Nenhuma corrente política
 Que soe a uma ideia grão
 E o mundo quer a inteligência nova
 A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
 Porque aí está apodrecer a vida
 Quando muito é estrume para o futuro
 O que aí está não pode durar
 Porque não é nada
 Eu da raça dos navegadores
 Afirmo que não pode durar
 Eu da raça dos descobridores
 Desprezo o que seja menos
 Que descobrir um novo mundo
 Proclamo isso bem alto
 Braços erguidos
 Fitando o Atlântico
 E saudando abstratamente o infinito

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2 comentários

  1. Fernando Pessoa e seus heterônimos sempre nos tocarão na alma. Há em cada poema algo que, como mortais que somos, acabamos nos identificando e nos subsumimos a sua obra.
    Fantástica profecia de Álvaro de Campos nesta estrofe:
    “Nenhuma ideia grande
    Nenhuma corrente política
    Que soe a uma ideia grão
    E o mundo quer a inteligência nova
    A sensibilidade nova
    O mundo tem sede de que se crie
    Porque aí está apodrecer a vida
    Quando muito é estrume para o futuro
    O que aí está não pode durar
    Porque não é nada”

    Estou amando o seu blog. Parabéns!

    Curtir

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