PHILIP ROTH. A TRILOGIA: "PASTORAL AMERICANA", "CASEI-ME COM UM COMUNISTA" E A "MARCA HUMANA"

Por muitas razões Philip Roth é um dos maiores escritores do mundo. Um grande talento para fascinar o leitor com estórias bem contadas. E bem mais. Tem lucidez e clareza para compreender, descrever e discutir problemas humanos fundamentais. Com profundidade e sofisticação. Não há banalidade em sua obra.  Desde o início de sua carreira Roth foi um bom escritor, mas a partir de “Patrimônio” tornou-se genial. E produziu fartamente. Faleceu em 22 de Maio de 2018, aos 85 anos. Deixou um grande legado. Creio que permanecerá, habitando os mundos de seus leitores. Inclusive os de tempos vindouros. Quase tudo o que escreveu é excepcionalmente bom. Usando um discurso de estrutura relativamente simples ele trata de temas delicados com complexidade notável. É instigante. Convida à inteligência na interpretação da vida. Enriqueceu o acervo intelectual e moral de nosso tempo. Fiel a sua origem judaica e norte-americana ele ultrapassou muitas geografias para se tornar o que é. Há um veio forte, que atravessa o conjunto de sua obra: a dimensão trágica da insubmissão da realidade diante da vontade do ser humano. Por melhores que sejam seus propósitos e maiores que sejam seus esforços.  Ao construir seus romances ele lança mão de contorções e “avessamentos” éticos para desconstruir e avaliar padrões comportamentais aparentemente bem estabelecidos. A moral está sempre em cheque. Com “Pastoral Americana”, “Casei-me Com Um Comunista” e “A Marca Humana”, relata situações muito vivas, que adquirem estatura próxima da experiência concreta de quem lê. É tudo verdade. O embate entre bem e mal. O enorme esforço para discernir uma coisa de outra. Os enredos dos três livros são distintos. A trilogia justifica-se pelo tema que fundamenta as estórias. Em “A Marca Humana” trata de modo mais direto da hipocrisia que pode ser carreada por comportamentos “politicamente corretos” e do quanto as pessoas podem ser perversas, agindo em nome de um suposto bem. “Casei-me Com Um Comunista” fala de um casamento que se transforma num drama doloroso e em decepções trágicas, em função dos enganos engendrados pela superficialidade das relações que parecem íntimas, quando estão distantes disto. “Pastoral Americana” mostra as forças indomáveis que levam à destruição de um projeto de vida, especialmente quando as relações entre as pessoas são parte de sua realização. Roth evidencia a dificuldade, se não impossibilidade, de se dominar egoísmo, mesquinhez, estreiteza de percepção, utopismo, propensão à destrutividade, entre outras indesejáveis qualidades inerentes aos indivíduos. Em grande parte elementos involuntários e amplamente refletidos nos fenômenos sociais, no intuito (ou na falta deste) de proceder de modo benigno na vida comum. Odisseias do homem para tornar-se melhor do que está, em princípio, capacitado para ser. A leitura de Roth é sempre deliciosa apesar da densidade. Uma oportunidade de aproximação com um pensamento inteligente, corajoso e est(ético). Transformador.
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4 comentários

  1. Meu amigo, adoro seu conhecimento e a facilidade em nos trazer de modo tão claro e simplificado leituras que são preciosas. 💋

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